ERRO E ACERTO
NO ESPAÇO CÊNICO
TV INSÔNIA
Cia Teatro Destinatário
A sinopse do espetáculo remete a Hugo Zorzetti, em sua peça teatral “Quem te viu, quem TV”, onde crítica a T.V. como a mais poderosa mídia massificante de inertes. Mais “TV Insônia” é totalmente diferente e na sinopse em questão diz o seguinte: “Uma comédia que satiriza a mídia televisiva, seus personagens e seus programas alienadores.”, mas o único momento em que essa sátira se apresenta é quando a personagem Sheila Janete repetiu por duas, ou três vezes a palavra “bagança”. E a plateia só é remetida a desenhos animados e ao programa do Sílvio Santos (S.B.T.), por conter na sonoplastia músicas em questão. E quando se apresenta o pessoal técnico do espetáculo não se fala “quem cuidou da música” e sim da sonoplastia. Em alguns momentos em que o elenco usa a arte da dança, se percebe a ausência de um coreógrafo nos ensaios, como também de marcação. Pois na esquete inicial quando a atriz Jéssika Hannder sai em direção a coxia dançando, ela mete a mão no rosto da atriz Ludmyla Marques que entrava em cena. A marcação em um espetáculo cênico é de inteira importância, não só para o desenrolar da mesma, como para prevenir acidentes e dar um brilho no âmbito ilusório que é o Teatro. Mesmo tendo um microfone como adereço de um dos figurinos, todo e qualquer ator deve estar ciente que impostação e dicção são cruciais sob o tablado. Creio que algumas aulas de trava-língua iriam melhorar de forma significativa a dicção da personagem, que cantou sua música na esquete sobre não ter talentos. Vamos falar agora um pouco de semiologia teatral. É chamado de objeto cênico qualquer objeto que faça parte de uma cena (mesa, cadeira, tapete, vaso, cortina, porta, cama, escadaria, guarda-roupa etc.). E este mesmo objeto é considerado lixo, quando ele polui a ação dramática, não só por estar em um ambiente errado, como também aquele que é posto no tablado e não é utilizado. Ficando ali, parado, como um espectador. O que faziam mesmo aqueles três assentos vermelhos, em plena boca de cena em 95% do espetáculo? Mais vale a pena conferir o espetáculo “TV Insônia”; pois além de ter um elenco desafiador, sem medo da plateia e de se atirar de corpo e alma ao Teatro, ainda conta com um show de interpretação do ator Cristiano Gonçalves, junto com o signo interior da atriz Susanna Gabriella na personagem mãe de santo.
Letícia Luccheze.
ERA SÓ O QUE FALTAVA
Cia Carlos MoreiraPolítica em cena, arranca risos reflexivos em ano eleitoral. A peça teatral “Era só o que faltava”, de ficção, se tornou Teatro Realista, sendo o encenado, apenas a ponta do iceberg da politicalha brasileira. Saudoso Rui Barbosa, que já nos dizia que a politicalha é “...o jogo da intriga, da inveja e da incapacidade...da criadagem e parolagem, afilhadagem e ladroagem...do envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis...da malária dos povos de moralidade estragada...” Nessa politicagem, se fica até na dúvida, se a peça era comédia, tragicomédia, ou mesmo uma tragédia na vida dos brasileiros, pós eleição. Mesmo com a ausência de cenário bidimensional e uma iluminação cênica, o que de costume vemos nos musicais da cia; na peça em questão, eles seriam e foram, totalmente desnecessários. Devido o clímax ser constante, dentro de um conflito dramático de gargalhadas. Sendo assim, o espaço cênico foi totalmente convertido no espaço dramático e totalmente dramático mesmo, que é a Brasília política. A peça de teatro em questão, devia e deve estar presente nos recintos educacionais, como momento cultural, que tem a capacidade de conduzir os alunos a uma reflexão sociológica e filosófica dentro das ciências políticas. Se você ainda, não foi ao teatro assisti-la, vá, antes que chegue o momento da urna eletrônica. Pois além de ampliar a sua visão a respeito da política no Brasil, você terá a honra de ver uma obra prima, de Mauri de Castro, sendo contracenada por Silvano Nóbrega, Carlos Moreira e tendo em destaque o talento indiscutível de Wilson Araújo para as Artes Cênicas.
Letícia Luccheze.
CARRO CAÍDO.
Cia Nu Escuro.A cia fez uma ótima adaptação e inserção, da lenda brasileira “Carro caído”, em um texto dramático. Este por sua vez, traz em seu contexto, música, traje típico, artesanato, provérbios, superstições, adivinhações, lendas, mitos, brincadeiras, desafios que é uma luta poética, entre outros. A peça teatral era pura cultura popular. Puro ouro do folclore brasileiro. Isso sim é Teatro com fins educacionais e pedagógicos. As instituições educacionais quer sejam em nível Fundamental, Médio, ou Superior deveriam levar, ou estimular seu alunado a assistir a peça “Carro caído”. Além dos alunos estarem inseridos no Teatro que é cultura, a peça em si tem como objetivos incentivar para a introdução do conteúdo sobre folclore e frisar o conteúdo já aprendido. Para os mais velhos a peça conduzirá a saudade dos tempos de brincadeiras de rua e aos mais novos, mostrará um universo ainda vivo, fora das brincadeiras digitais. É este tipo de saída que uma instituição educacional deve fazer e não levar o alunado ao clube. Pois o objetivo de uma instituição educacional, não é oferecer lazer e sim instruções em determinadas áreas. O lazer é papel da família com o seu filho. A participação sempre ativa da plateia mirim, com a quebra da quarta parede, arrancou várias gargalhadas dos presentes. O elenco só deverá ter mais cuidado com os esbarrões, entradas e saídas pelo cenário de tecido suspenso. Ele não deve balançar e nem o ator deve ficar arrumando-o, com a presença da plateia. Mas este foi um ótimo e prático recurso cênico utilizado; pois ao mesmo tempo em que atrás dele, se transformava em coxia, se transformou também em camarim. Isso são coisas da maravilha que o Teatro proporciona. Vale conferir a peça “Carro caído” e poder se deliciar e nadar a braçadas em nosso folclore.
Letícia Luccheze.
TESTEMUNHAS
Cia Paz em CartazVamos ser realistas, mas alguns futuros atores, que escolherem o caminho de stand up, de contador de estórias, ou mesmo o de monodrama; deveriam fazer primeiro, um laboratório dramático com Jaime Júnior. Por que o que foi aquilo? O que foi aquilo? Como pode, um único ator, sob o tablado ter concentração extrema, e dominar características corporais de personagens diferentes, acompanhado também de vozes diferentes? E em primeiro momento, foi feito tudo isso, ao mesmo tempo!!! As primeiras palavras do ator abriram as portas da peça teatral, ao público e mostrou a riqueza que estava por vir. Já dava até orgulho de estar sentado ali e em meio a isso, veio um peso na consciência no valor simbólico que foi a entrada, perante o espetáculo que estava ocorrendo. Como diz Zé Ramalho na música “O meu pais”: “...e as Artes não respeita...Pode ser o país do futebol /Mas não é com certeza o meu pais...”. Como pode isso? O Teatro é tão importante na formação do ser, chamado homem; que está virando porta aberta para o mercado de trabalho competitivo, para quem o tem no seu currículo. Como podemos combinar com os amigos de ir ao cinema e não combinar de ir ao Teatro? Zé Ramalho, bom companheiro nos trilhos das Artes. Jaime Júnior foi esplendorosamente orgânico, teve empatia, e encarnou os personagens de forma que conseguiu tocar no anímico da plateia, emocionando-a desde a primeira palavra, a última. Sua ação exterior foi rica, em expressão gestual e vocal; conseguindo expressar todas as emoções. Foi uma perda, para aqueles que não puderam estar presente e compartilhar deste espetáculo cênico. E olha que a peça esteve em cartaz por três dias consecutivos! No discorrer da peça, em meio as cara e bocas do ator, se pode compreender também como o Teatro Gestual por vezes, fala mais alto e sem impostação. Pois a cada movimento da sua face, de seus braços, de seu corpo dolorido, por vezes retorcido, cansado, desesperado e leproso; mostrou que o ator profissional não tem medo da plateia; pois ela está no tablado junto com ele. Mostrou também que o ator profissional não tem medo de se expor; pois ele está ali fazendo Arte. Arte com seu corpo, Arte com sua voz, Arte que toca no outro que chora. O texto dramático em questão, estava acarretado de clímax, em meio a histórias diferentes, mas todas ligadas por Cristo. E seu tempo dramático, durou exatos trinta e três anos, do seu nascimento a ressurreição. Independente de sua religião, ou se a peça é um auto; vale muito a pena estar sentado numa poltrona e ter a oportunidade que poucos têm de reavaliar a vida, no tempo cronológico de uma peça teatral.
Letícia Luccheze.
(IN)PESSOA(L)
Cia OopsQuem nunca presenciou, belas poesias em meio a versos; que encantou, conquistou e jorrou sabedoria entre estrofes de um poema? Antigos costumes como os recitais de poesia, que outrora enchiam o ar de melodia e perfumava os encontros dos apaixonados. Locais estes, praticamente extintos, onde serviu de encontro para grandes escritores. Onde foram parar os versos, as estrofes, as melodias, as poesias? Onde está o poema? É sempre o último livro da livraria a ser vendido, quando não tem que fazer liquidação. A Cia Oops proporcionou aos apreciadores de literatura brasileira, de encontrar Fernando Pessoa, em pessoa, sob o tablado do Teatro Goiânia Ouro. Pois o homem pode morrer, mas as suas palavras jamais morreram. Ela perpetua o tempo, levando consigo o seu criador vivo! Não era um recital; pois a presença do Teatro era marcante. A plateia pode conhecer, ou reviver um pouco da vida desse memorável escritor; como também suas palavras, suas vidas e suas facetas poéticas. Tudo isso em meio à poesia encenada, dentro de monólogos, ou contracenada, cheios de bifes bem passados. Numa mistura homogênea de Teatro Contemporâneo e “Teatro Estático”. Tendo em visto que o próprio poema tem seu enredo e cria ação por si só. Os atores com figurinos atuais, sem cenário e sem nenhum objeto cênico, conseguiram converter o espaço cênico para o espaço dramático de Fernando Pessoa. E o encantamento foi duplo. Primeiro com Fernando Pessoa em versos; segundo com João Bosco Amaral em cena. Só a sua impostação, a força da sua voz, as mudanças da mesma e suas ações exteriores, já valiam ter pagado a entrada. Como ele interpreta que é um espetáculo! Este sim, faz jus a cia. A Companhia Oops é uma das referências em iluminação teatral, nos tablados goianienses. Onde os estagiários de iluminação cênica, deverão tê-la como uma das fontes de seu estudo. Vale a pena assistir (In)Pessoa(L), com um trio cheio de força de expressão, que levou a plateia a um deslumbramento poético. E para quem gosta de apreciar um texto em versos, o descendente dos recitais, talvez seja a poesia encenada.
Letícia Luccheze.
O MARIDO DA MINHA MULHER
Cia Bandeirantes Produções Artísticas
Semiologia teatral é o estudo dos símbolos, dos signos presentes em uma encenação teatral. O primeiro signo do Teatro é um signo auditivo, que é a palavra. Saudosas aulas da professora teatral, Júlia Pascali. Mais, nos primeiros momentos do personagem Nico, ocorreu uma queda de impostação e dicção; o qual o ator conseguiu recuperar nos momentos seguintes. Já os signos exteriores caracterizaram perfeitamente a ação dramática. Desde o vermelho do sofá, aos arranjos florais em cores e disposição das rosas. Para um estudante de Teatro, a peça mostrou nitidamente como se pode fazer a sua divisão em atos. Podendo assim, usar o recurso da sonoplastia (tics e tacs), da iluminação (baixa), troca de figurinos e as entradas e saídas dos personagens. Outro momento pertinente, aos estudantes, foi quando o ator vindo da coxia, de uma troca rápida de figurino, não abotoou os botões esquecidos da camisa, em plena encenação. Ele reafirmou que um ator, de forma alguma pode confundir o tablado com camarim. Já a personagem Bruna, faz um cafezinho excepcional. Que aquele que estava embriagado, tem a sobriedade física e vocal de volta em segundos. Quase deu a entender que era o início de outro ato. Por isso, devemos ressaltar que o ator necessita de muita concentração, para que não perca as características de seu personagem; mesmo que estas sejam momentâneas no discorrer da montagem cênica. Mas é sempre um privilégio e um espetáculo, ver um ex-presidente da Federação de Teatro do Estado de Goiás (F.E.T.E.G.) em cena. Uma das coisas boas do Teatro, é a socialização. E um exemplo claro disso, foi o momento em que o personagem Paulo, dançava com a personagem Bruna e seu falecido marido Alex, puxa o amigo pelo quadril. Marcação esta, reciclada da apresentação da mesma peça, por outra cia. Percebe-se a socialização, a interação, o trabalho em grupo, com os outros e com o mundo, que o Teatro oferece? O que é bom, realmente deve ser aproveitado em todas as suas instâncias. No decorrer da apresentação, a cia fez tributos a personagens dos atores Edgar Vivar e Roberto Gómez Bolamos. O elenco em si soube encarnar, cada qual seu personagem, com ótimas expressões faciais. Os conflitos dramáticos bem distribuídos e dosados, o qual fez a platéia em deleites de gargalhadas. Vale a pena conferir a peça “O marido da minha mulher”; pois o texto dramático é muito bom; o qual provoca o riso cerebral e intelectual.
Letícia Luccheze.
A FARPA
Cia MínimaDistribuído em atos, Guimarães Rosa novamente sob ao palco goianiense, levando um pouco da farpa do sertão. Quem der conta de escrever uma poesia, certamente conseguirá escrever um texto dramático. E dentro dessa dramaturgia, fruto da experiência de cada um da cia, nasceu o seu filho em meio à família Crispim. A dor, a farpa do abandono, a insanidade, a farpa da violência, o lamento, a farpa da desesperança, a seca, a farpa da pobreza, o incesto e a farpa da inundação são alguns sentimentos, situações e momentos presentes na apresentação. Peça teatral de duas horas de puro espetáculo cênico, com um elenco de primeira; que soube encarnar cada qual seu personagem. Antes acreditava que em Goiânia havia poucos atores profissionais, mas agora sei que eles estão escondidos e muitos na Companhia Mínima. Não se pode identificar um protagonista; pois todos eram protagonistas daquele sofrimento. O elenco mostrou o que é um trabalho em equipe dentro do Teatro, em meio às farpas das dores inconsoláveis e agudas de mais uma família do sertão brasileiro. Sendo você e eu chamados de seres humanos, devemos quebrar a casca do nosso ovo; pois já estamos podres dentro dele. E ao sair, perceber que existe gente lá fora, como os nordestinos, que precisam de ajuda e assim gerar ação em bem comum. Será que alguém entende agora o porquê que muitos nordestinos saem de sua terra natal e migram para as grandes capitais? Será que agora vocês conseguem ser orgânicos como o elenco e sentir a letra da música “Asa branca”? Pois os artistas quer sejam nas Artes Visuais, nas Artes Cênicas, nas Artes Audiovisuais, nas Artes Circenses, na Dança, ou na Música expressão é sentimentos. Um momento da peça em que os olhos brilham diante do cênico é quando o ator Andreane Lima representa o braço de Niinha que lhe acariciava o corpo. Que espetáculo de encenação!! Pois naquele momento sublime, não se via o braço do ator e sim o braço da irmã de Inácio. Esteve presente o Teatro Físico e Realista, dentro de um cenário acarretado de signos, que ilustrou e converteu perfeitamente o espaço cênico para o espaço dramático em que discorre a peça. Mesmo sem o elenco “interagir” com a platéia, estando separada “duplamente” por uma cerca de farpas. Toda a apresentação foi com a quebra da quarta parede; pois o clima emocional gerou uma empatia no público, que por várias vezes subiu, ao palco e integrou com aquela família, quando de sua face uma lágrimas corria. Em meio à caminhadas lentas, que frisavam o pesar, carregado nas costas dos personagens daquela vida, a ação cênica foi se construindo. Bifes bem distribuídos trouxe os atores algumas vezes, da boca de cena, ao proscênio encerrando a peça em um desfecho trágico e conclusivo de que vivemos e entre farpas. Se ainda não assistiu “A Farpa”, então junte todas as moedas que tiver espalhadas em casa e pague a entrada inteira; pois além de valer a pena, você assistirá, é a um espetáculo. Merda pra vocês!
Letícia Luccheze.
XÉROX A COMÉDIA
Cia ArttpalcoA cia aposta em colocar no tablado, mulher bonita de acordo com a mídia e doses acentuadas de sexualidade apresentadas em esquetes. Assim se define as apresentações desde a sua estréia em junho de 2008. Personagens anteriores voltam à cena, como a “sexóloga” Lucycreide que antes orientava na vida conjugal e agora fala da vida de aposentada. E cena como a do “Beijo Técnico”, foi repaginada desde as atrizes à estória. Nessa nova apresentação, surgem novos personagens e novas cenas. Questões como a bissexualidade se evidencia e nos remete ao kit anti-homofobia; criado e suspenso este ano, na gestão Dilma Rousseff. Onde um dos vídeos em desenhos, retrata a bissexualidade como vantagem; pois assim a pessoa “tinha duas vezes mais chance de encontrar alguém”. Essa é a mensagem presente em algumas cenas do espetáculo. Xerocopiado, não é verdade? No decorrer das apresentações; se apresenta vários “erros” despertados pela própria boca dos atores: “Eu tinha que ter uma bolsa aqui”, “Esqueci o texto” entre outros. Mais não foram erros; pois ficou evidente também pelo comportamento dos atores, que fazia parte do roteiro com o intuito de arrancar o riso. Isso é bom, fica interessante, mas não pode virar rotina entre os grupos e as cias. Pois aí se tornará comum, massante e monotonia; fora que a ilusão do Teatro perderá o valor da sua cortina. Temos também que zelar por alguns itens, como a impostação ter ficado irrelevante, com o uso do microfone na maioria das cenas. Da importância da mudança de voz e postura, quando se interpreta vários personagens dentro do mesmo espetáculo. E do desfecho de cada esquete. Mas quando o ator Douglas Monteiro sobe ao palco, não tem como segurar o queixo pelas suas boas atuações. Quem é que não lembra do contra-regra apresentado em comemoração, ao dia internacional do Teatro, no Centro Cultural Martim Cererê? É um espetáculo de ator! A apresentação da “Xérox” em si teve uma ótima construção dramática, em meio a música, dança e monólogos que fizeram os aplausos da platéia. O título permanece o mesmo “Xérox a Comédia”, mas a cada temporada as apresentações se renovam, como se desse, vida ao Teatro. Vale a pena conferir e você terá orgulho dos atores goianienses; pois eles estão lado a lado com os do eixo Rio/São Paulo.
Letícia Luccheze.
AMBIVALÊNCIA
Cia Novo AtoHorror em cena, foi um dos sentimentos despertados na platéia, que precisou de ajuda para aplaudir o espetáculo. A peça em questão abordou questões como dupla personalidade, castidade, conflitos conjugais, violência sexual entre outros. A trama transmite ao espectador o ambiente ambivalesco, de pessoas com dupla personalidade, que estão em guerra constante com os seus “eus”; o qual muitas vezes gera violência física contra terceiros. Sutilmente também nos conduziu ao mundo ambivalesco, privado dos direitos do outro, frio, egocêntrico, daquele que em sua prática se apresenta o aliciamento de menor, a pedofilia, o estupro, o assassinato e a sodomia. Em todo desenrolar do drama percebe, que muitos dos conflitos e problemas dos homens, têm como pano de fundo a sua sexualidade. Seríamos nós, atuantes ativos do Pansexualismo? Nessa interrogação, vem a mente Mahatma Gandhi que se absteu de sua vida sexual, com o objetivo de purificação da alma. Teatro Físico com uma pitadinha de Teatro Realista dá vida a esses conflitos, que acarretam a vida de algumas pessoas comuns, que se tornam incomuns nos noticiários policiais. A marcação e o trabalho corporal, perfeitos, com um efeito visual belo. Qualquer estudante de Teatro perceberia o valor que tem as técnicas de respiração para a prática teatral. Um momento cênico espetacular, foi quando a atriz Marília Ribeiro é girada dentro do seu pequeno mundo distorcido e como em um passe de mágica se apresenta a sua outra personalidade no corpo da atriz Ana Lu. Quer saber se o ator é bom? Dê um bife a ele. Quer saber se a cia é boa? Dê um drama a ela. E isso a cia tirou de letra, em meio a um Teatro inteligente, sob o tabuleiro do jogo das duplas personalidades e de alguns distúrbios sexuais. Vale a pena conferir a peça e se no final você ficar horrorizado, sem reação, é porque conseguiu entrar no mundo dessas pessoas.
Letícia Luccheze.
BRASIL COM ACENTO E CRASEADO
Mama Cadela Cia TeatralNos três maiores jornais da cidade, estava publicado que a peça teatral começaria às 21:00 horas. Eu disse que estava publicado a palavra “PEÇA” e não cena. Pois bem, a porta que dá acesso ao interior do teatro abriu às 21:05, as pessoas se aglomeraram na entrada, um funcionário do teatro conferiu os bilhetes em inteira, ou meia e sua veracidade. Um a um todos foram entrando, se acomodando e aguardaram a espera do início do espetáculo. E quando o relógio marcou 21:30 o espetáculo chegou ao fim. O quê??????? Fiquei com a boca entre aberta, prostrada no assento do teatro, sem forças pra levantar e ir embora. É verdade que séculos atrás, as peças teatrais duravam horas, dias até. Hoje em nossa atualidade, no mínimo uma peça teatral tem que ter a durabilidade de uma hora. Abaixo disso temos apenas cenas, cenas curtas, somente cenas. Parei de lavar o chão para ir ao teatro, tive um gasto financeiro de cinqüenta reais desde deslocamento à compra do bilhete. E acabei assistindo foi uma cena!!!!!! O que fazia no fundo do palco do lado direito da platéia uma escada aberta? Será que era parte do cenário? Ou era um objeto cênico desnecessário, fazendo sujar a cena? Na interpretação de “Pedro Álvares Cabral” feita por Renata Curado não se consegue ver o personagem; somente a atriz no tablado. Isso porque a atriz interpretando um homem, falava em seu próprio timbre feminino e o figurino não ajudou a ocultar partes de seu corpo de mulher. Pedro Álvares Cabral tinha timbre médio e seios?? Será por isso que um dos jornais ao se referir ao espetáculo, colocou o título “Antiguidade x atualidade”? A assinatura no texto dramático prometia, mas não foi o que aconteceu em menos de vinte e cinco minutos de encenação.
Letícia Luccheze.
SER TÃO GRANDE
Grupo Arte e FatosFigurino impecável, fotografia imensurável, trabalho de corpo e caracterização do personagem pelo ator relevantes, iluminação presente e direção bendita. Bendita direção! Assim se pode dizer um pouco da peça teatral em questão. Texto dramático, fiel a Grandes Veredas, conseguiu emocionar a platéia ativa da vida dos sertanejos. De sua inocência, miséria, doença, chão rachado, morte, “Vidas Secas”, Deus e o diabo. A morte em badaladas, a espera, como o urubu sedento pela refeição à frente. O dialeto, a cenografia objetiva, clara, versátil e inteligente auxiliou a contar em uma hora e meia a vida simples e pobre de homens que clamam silenciosos por ajuda. E muitos de nós ditos brasileiros ignoramos essa condição de vida, nos contendo em nosso mundo fantástico e imaginário; fugitivo da realidade. O mapa geográfico talhado no que tentava proteger do frio, o navegar pelo rio, a transformação do boneco em menino, o velório e a inocência de um garoto com seu brinquedo circense; realmente foram vários espetáculos dentro de um espetáculo maior. Excelente apresentação! Vale a pena conferir “Ser Tão Grande” e poder lhe proporcionar o prazer de navegar na literatura brasileira em cima de um tablado; o qual retrata a vida de nossos sertanejos. Se emocione, chore com eles, erga a sua mão e faça a diferença em nosso mudo.
Letícia Luccheze.
PARADOXO
Cia Marula
Nada que um drama e bifes distribuídos ao elenco para se encantar com uma boa atuação. Teatro é fazer a platéia enxergar o que não existe, mas coexiste no drama. O grupo, ou cia que conseguem fazer que a platéia veja dramaticamente, merece ser aplaudida de pé. Se Simão Bacamarte estivesse assistindo a peça, certamente iria conduzir pessoalmente o elenco a Casa Verde; junto com boa parte da platéia que compartilhava daquela insanidade, isso se não fosse toda ela (e cadê eu?). Assim a peça desenrola nas loucuras normais e comuns a muitos que compartilham uma vida sozinha na zona urbana. Hamlet diz em seu devaneio cênico: “Ser ou não ser eis a questão...”. Aí modificamos um pouco: ser ou não ser, não se sabe o que, dentro da civilizada cidade. Havia um terceiro personagem na peça em questão, podendo ela ser denominada como o cadáver, ou mesmo o defunto. Não existe a defunta; pois se trata de um substantivo sobrecomum. E nesse comum do sobrecomum que é um espetáculo teatral, os atores, ora um, ora outro, representava o cadáver, o que ficou formidável. O público “via” o corpo no chão, de acordo com o direcionamento dos olhares e gestos do elenco em relação ao mesmo. Mas este mesmo elenco fez que a platéia enxergasse o cadáver em dois pontos distintos. Ora o defunto estava inclinado, do lado do banco, um pouco à frente e ora estava do lado do banco, horizontalmente um pouco atrás. Fora que vira e mexe o cadáver era pisado pelos atores. Talvez seria o delírio encenado, já fragmentado no corpo do ator? O texto é firme e forte; o qual nos converte para o espaço dramático do século XIV, onde foi dizimado mais de 70 milhões de pessoas pela Peste. A própria sinopse da peça confirma: “...a peste que assola aquela cidade...” Mas nessa época ainda não se usava palavras como “overdose” e o cenário e o figurino também não condizem com o espaço e tempo. Temos que ser cuidadosos quando acrescentamos ao texto original, trechos de outras obras. Mais entre Machado de Assis, Mauri de Castro, William Shakespeare e Antonin Artaud; vale a pena conferir Paradoxo, pois em um ponto ou outro da peça, com certeza você se identificará.
Letícia Luccheze.
OS ESQUISITOS
Grupo Encantarte de TeatroA Mímica tem função paraverbal de uma ação (correr, beber água, tomar banho). Já a Pantomima não se limita apenas a uma ação, ela conta uma história, também por meio de gestos. A peça teatral em questão utiliza a pantomima para apresentar esquetes. Tendo boas atuações na esquete do fotógrafo, em relação ao assunto desanimado e na dos jogadores de pingue-pongue. Já na esquete dos dois corredores, a ideia do rabo de espuma, representando o vento passando pelos corpos em movimentos foi genial. Mas qual o objetivo cênico de colocar atores no palco isolados, ou não, para dançarem e dublarem músicas? Teria a função de intervalo? E por que cada quadro estava necessariamente ligado à conclusão de músicas? Tornando aí, cenas que poderiam ser maravilhosas em massantes. A disposição do teatro nos fornece um camarim com duas saídas para o palco que se transformam em “coxias”, uma a direita e outra a esquerda. Então como pode o ator cortar todo o palco para colocar na outra extremidade um objeto cênico (buquê)? O ator tem que se organizar antes da apresentação e todo objeto deverá já estar em seu lugar e não ser colocado com toda a platéia observando. Se o mesmo camarim divide parede com o palco e não tem portas e nem paredes acústicas, então não se deve conversar alto e nem apontar para assistir a cena. Os figurinos tiveram um investimento significativo. Mas um figurino preto com marcas de maquiagem branca? Tinha até uma mão inteira no corpo do ator! Tudo bem, isso pode sim acontecer, mas antes de entrar no palco dê uma geral e tenha sempre em mãos um pano úmido. Não há problema nenhum se a peça teatral for em esquetes, desde que todas elas tenham uma ligação, aparente sim, no contexto geral. Por que o espetáculo foi constantemente quebrado? A cada esquete o palco ficava vazio, sem ninguém, sem ação, morto! Os atores estavam esperando o que no camarim? Parecia que não era um grupo apresentando e sim vários em um festival de cenas curtas. A sinopse da apresentação dizia o seguinte: “...unem-se pela diversidade de concepção e, sobretudo, de efeito...” “...a montagem surpreende pela proposta sincrético-sinestésica.” Gostaria muito de quem redigiu a sinopse tivesse na direção do espetáculo. O grupo está em crescimento e deve continuar com os trabalhos cênicos; pois tem potencial.
Letícia Luccheze.
O BONECO DE COR
Teatro do MaleiroNo Teatro de Animação o foco está no objeto, que antes inanimado, agora ganha vida; se tornando uma pura prosopopéia. Como um contador de estórias, o bonequeiro não deve chamar atenção para si e sim para o seu alvo em questão (estória/boneco). Ambos profissionais devem ficar o mais nulos, os mais ocultos possíveis no espaço cênico. Ressalto se o bonequeiro transformar em personagem, fazendo parte da estória; caso contrário nenhum pedaço dele deve ser “visto”; ou dado enfoque. Isso ajuda o público que deve ouvir só a estória, ou ver só o boneco; deixando espaço para que o seu imaginário leve seus sentidos a um mundo irreal de materialidade. E nessa magia os bonecos inspiram o fôlego da vida e andam, falam, riem. Na primeira estória da apresentação (o boneco com a caixa) o bonequeiro fica “visível” no tablado, devido à presença de uma gravata (?), a ausência de luvas e máscara. Entendesse a ausência das luvas; pois em momentos a mão do manipulador se transforma na mão do boneco. Então entendesse também, que Teatro é um trabalho em grupo e que havia a necessidade de dois bonequeiros no primeiro quadro. Apesar que o palco estilo arena não colaborou muito; pois o boneco no chão, só conseguia assistir com perfeição as primeiras fileiras de espectadores. Já na segunda estória (boneco idoso) o bonequeiro se apresenta de chapéu, blusa e a gravata. Mas ele agora, se transforma em um personagem e temos o prazer de assistir um espetáculo, onde o boneco e o seu próprio manipulador conversam em meio a interação com a platéia (Norvarie rsrsrs...). Um deslize ocorreu na quarta estória (boneco com mala) onde se vê a mão do manipulador por mais de uma vez. Em meio a várias estórias, se percebe que Marcos Marrom tem domínio perfeito em relação a tipos de vozes e em outros, os bonecos são manipulados com perfeição. Vale a pena conferir a apresentação do “O Boneco de Cor” e saborear um pouco desse universo que é o Teatro de Animação.
Letícia Luccheze.
LIÇÕES DE MOTIM
Anthropos Companhia de ArteNo início percebe-se, como o Teatro é mágico; no momento em que a atriz Renata Caetano transforma um lenço em pano de chão. Juntando isso, com o bom cenário, em meio aos seus signos, o plano médio e a mudança de timbre; remeteu a muitos as saudosas aulas de Teatro. Um momento interessante da apresentação é quando à viúva entra e sai de casa, dando a volta no corpo do ladrão. O rodar que o ator Liomar Veloso faz na janela e com ela, foi um insight muito bom; o qual passa perfeitamente a ideia da ação. Momento esse aproveitado para que o ladrão ficasse de frente para a platéia. Quando o ladrão começa com um choro enrustido, o riso da platéia some, dando lugar a olhos úmidos. Que logo secam com a tentativa de convencimento do ladrão à senhora pensionista. Fazendo muitos a pensar nos ditos dos poucos que dominam para os muitos dominados: “não faça isso, porque se não você vai ficar com a consciência pesada”, “não faça aquilo, porque depois você não vai conseguir colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo”. Talvez seja isso que a viúva tenha pensado e concluindo que os dominantes fazem pior e não têm peso de consciência e dormem tranqüilo, tranqüilo. E assim ela resolverá mudar a história. O texto da peça teatral é impecavelmente perfeito! “Lições de Motim” realmente é um espetáculo, te fazendo ter uma epifania da vida. Muito, muito, muito, muito, muito bom! Vale a pena conferir e trocar a T.V.; pois no final verás que os 10 reais da entrada saíram de graça.
Letícia Luccheze.
PAPO CALCINHA - POR ELES
Companhia StarsA divulgação promete um conhecimento do mundo masculino perante o universo feminino. Mas o que ocorre é uma desvalorização da mulher perante o universo masculino. Para quem acredita que homens têm cérebro e mulheres só silicone, compre seu ingresso antecipado. Um ator profissional sabe que se errar deverá improvisar e no espetáculo em questão o ator errou e fez questão que a platéia percebesse. AH????? Está bem, vamos dar um crédito porque esse ato arranca saborosas gargalhadas. Mas errar uma, duas, três, quatro???? A ideia de colocar os atores para trocar de figurino no tablado, ficando só de cueca, foi uma excelente jogada de marketing. Mais trocarem de figurino, duas, três vezes, virou rotina e a platéia começou a conversar sobre assuntos diversos. É importante que os grupos e as companhias quebrem a quarta parede. Mas se quase cem por cento da peça é sem a quarta parede; aí vira um programa de auditório. Ressalto os monólogos. Querer anunciar que sua peça teatral não é boa, ou auto-suficiente antes mesmo dela começar é plantar pessoas da companhia na plateia. Isso é chamar de ignorante, a plateia de onde vem o seu sustento e é ela o seu maior crítico teatral. Para os amigos é compreensível que os atores demorem na coxia. Pois afinal são homens colocando meia fina. Mas não é aceitável para qualquer apresentação teatral, que o tablado fique sem ator, vazio, parado, morto, matando o espetáculo. Mais vale a pena conferir a peça “Papo Calcinha – Por Ele”; pois o ator Murillo Veiga encena que chega seus olhos riem.
Letícia Luccheze.
![]()