ERRO E ACERTO
NO ESPAÇO CÊNICO

 

 

 

CLOWNS-TO-FOLIA
Grupo Imagem

 Subiu ao palco goianiense, a excelência teatral da cidade de Inhumas, em meio a Comédia, ao Clown, a Farsa e ao Teatro Gestual. Quadros unidos pelo sentimento do amor, dosa o clima emocional, criado pela iluminação e pela sonoplastia; em meio a encontros, desencontros, acertos e desacertos amorosos. Quando você acha que é o alguém de um, não é mais o um de outro e por vezes percebe que acaba sendo o de outrem. Esses conflitos fazem parte de boa parte de nossas vidas, o que levou individualmente a catarse cada um da plateia. Climas, clímax, conflitos e desfechos geralmente diferentes do que cada um gostaria para suas vidas amorosas, que só com um amadurecimento poderemos ver o amor de forma total. Quebra da quarta parede, figurino, maquiagem, expressões corporais e faciais excelentes. E quem disse que pra contar uma estória/história necessita de cenário? E me digas que não enxergou a rodovia no momento em que o personagem do ator Mario Augusto pedalava? Viu que momento mágico? Percebeu do porquê que o teatro é chamado de caixa mágica? Notou como a atrevida da iluminação invadiu o espaço da cenografia e converteu todo o espetáculo do espaço cênico para o espaço dramático? Como é gostoso ir ao teatro e assistir uma peça de qualidade!!! E como pode, uma professora de Língua Portuguesa exalar por toda a sua pele  Arte? Como pode, ter se deixado contaminar desta forma pelo Teatro? Os olhos dela reluz Teatro, suas expressões corporais seduzem em nome dessa Arte. Ao seu lado nada mais, nada menos que Rafael Martins, excelente na Arte Dramática. E foi o tempo que nos mostrou, que quanto mais maduros os atores, mais a sua obra chega a excelência. E para os estudantes de Teatro que ainda não conseguiram entender que quando um ator sob aos palcos, não é ele que está lá e sim o personagem, então por favor conheça o ator Rafael Martins fora dos palcos e depois vá vê-lo ser orgânico sobre o mesmo. O grupo itinerante trouxe privilégio a uma plateia seleta, que quebrou as pernas do palco; pois não teve como não aplaudir com fervor, tamanha excelência cênica. 

Letícia Luccheze.

O INSPETOR GERAL E A FARSA DO GOVERNADOR
Companhia Mínima 

Sabendo que após o inicio do espetáculo, ninguém mais entra, então às 19:30 a plateia já se aglomerava no bar do Centro Cultural Goiânia Ouro; a espera ansiosa da estréia de mais uma peça da Companhia Mínima, que estava marcada para as 20 horas. Tic-tac, tic-tac os ponteiros marcam 20:20. Tic-tac, tic-tac e os ponteiros marcam 20:30, quando Gabriela Garcia que compunha a plateia toma a iniciativa e abre a porta de entrada para o corredor esquerdo que dá acesso ao teatro. Neste momento, o olhar de todos sob ela dizia: “Vá que nós te seguimos”. E impregnados pelo mesmo desejo da Arte Teatral, todos a seguiram, até serem cortados por um rapaz da cia, que passou correndo pela porta de acesso ao teatro e a trancou, deixando toda a plateia no corredor.  A plateia frustrada e decepcionada pelo tratamento, começou a bater palmas em meio a um coro que dizia: “Abre, abre”. A cia nestes momentos tapava seus olhos, bocas e ouvidos e a plateia continuava: “Abre, abre”. Um momento único de vergonha para qualquer grupo e cia de teatro. E do jeito que estava, a plateia ficou. O que será que aconteceu? Será que o elenco não estava completo? Em meio à única voz da plateia, podia se ouvir instrumentos musicais vindo do teatro. Será que estariam passando um ensaio geral? Será que estariam fazendo um ensaio com os instrumentos, já que toda a sonoplastia era feita pelo diretor da cia e pelo próprio elenco? Em meio a todo esse desconforto, pessoas da plateia foram embora. Gente, ACORDA! A plateia começou a ir embora!!!! O relógio já marcava 20:40, quando a coordenadora Lins da Escola Municipal Coronel Getulino Artiaga, saiu do corredor da angústia e se dirigiu a um responsável da cia, comunicando que iria embora com todos os alunos da escola. E olha que a escola havia agendo a semana passada a sua presença no espetáculo. E foi só aí, que a cia resolveu deixar a plateia entrar, tendo a peça início às 20:50. NADA justifica esse atraso de quase uma hora, NADA justifica esse tratamento com a plateia. O que será que está acontecendo, nesse virar de março pra abril, que grupos e cias estão tratando a plateia de onde vem seu ganha pão de forma secundária? O ator precisa de que pra viver? Ele precisa de plateia, de plateia, de plateia. Já dentro do teatro era distribuído um folder da peça e quem entregava pedia desculpas pela demora de quase uma hora e falava que o espetáculo valeria à pena a espera. E como o ano é eleitoral e a peça trazia teor político, a fala do entregador de folder foi no mesmo ritmo. Vamos à peça em questão: a cia se apresentou com cena fixa e inovou com a ausência das asas do palco. O que fez os atores aguardarem a sua vez de entrar, dentro da própria encenação, fazendo parte do espetáculo, sentados à direita e a esquerda do palco. Luz geral, figurino, cenário e sonoplastia excelentes. A cia sempre sob aos palcos dando um banho em meio a um elenco excelente. Ótimas marcações, mas em alguns momentos foi falha. Quando atores no proscênio ocultaram outros na boca de cena e quando uma garrafa de vidro caiu, espalhando refrigerante e cacos pelo tablado. Por um momento parecia que tudo fora um improviso. E não se sabe ao certo qual era a função de uma garrafa de refrigerante cola na alta, como também o que faziam caixas de luz de ribalta, espalhadas no proscênio, sem lâmpadas, sem fios, ali paradas como espectadoras. Apesar da temática política interessantíssima da peça, remetendo a plateia constantemente a catarse, depois de quase uma hora de atraso e quase duas horas de espetáculo, nem com a quebra da quarta parede a plateia não via à hora de ir embora. Não sei o que aconteceu nesta noite; pois a Companhia Mínima é uma excelente cia, acarretada também de excelentes atores.  

Letícia Luccheze.

A CARTOMANTE
Grupo Liquidificador 

O Centro Cultural Martin Cererê, foi palco de um espetáculo, iniciado antes mesmo da entrada ao teatro. O espetáculo “A cartomante” do grupo Liquidificador de Brasília, foi divulgado, que a entrada era franca. Mas francamente, havia muitas pessoas e outras muitas chegando, para apreciar tal espetáculo, estimuladas por Machado de Assis. E estas MUITAS, não puderam nem se quer chegar aos pés da porta do teatro Yguá. Pois ao chegar em solo Cererê , é que foram informadas que os ingressos encerraram e que deveriam tê-los retirados com uma hora de antecedência. É pra rir? É pra chorar? Ou é para estes espectadores procurarem seus direitos? Pois em NENHUMA, em NENHUMA das divulgações em relação à peça, constava nem se quer em letras minúsculas, que os interessados deveriam retirar o seu ingresso antecipadamente. O responsável pela entrega das entradas, dizia às pessoas que chegavam, que a seção estava esgotada; pois a lotação era de cem pessoas. Ele foi salvo por ser gandango; pois nós goianienses sabemos que o teatro Yguá comporta trezentas pessoas. Quem é o responsável pela má divulgação; o qual fez com que pessoaS deixarem o conforto de seus lares, num sábado à noite de chuva e voltarem pra casa sem Teatro? Seria o grupo Liquidificador, responsável pelo espetáculo? Ou seria do responsável pela divulgação? É uma coisa de louco, nessa hora, Simão Bacamarte teria colocado ambos na casa Verde. Pois se existe uma luta contaste no meio teatral, é na questão de formação de público e quando há este público, numa noite de CHUVA, ele é desrespeitado e mandado embora. A falta de respeito foi tamanha, que nem companheiros da mesma Arte teatral foram poupados.  Como ocorreu com o grupo Êxtase, que se deslocou em massa de sua cidade e tiveram que dar meia volta... Deixo apenas uma pergunta: O ator precisa de que pra viver?

 

Letícia Luccheze.

 

CONTOS DESENCANTADOS
Companhia de Teatro “Mate com Pequi”

        Iniciando no mesmo caminho, que um dia fizeram os atores da Companhia de Teatro Nu Escuro, alunos do Instituto Federal de Educação, levam ao tablado, protagonistas anti-heróis, atualizando e revelando os preconceitos que há por trás dos contos infantis e de super-heróis. Remetendo-nos, diretamente ao livro “Conto de Fadas Politicamente Corretos” de James Finn Garner. A peça teatral em cinco atos nos fez ficar de frente com Augusto Boal, com a presença de pinceladas no Teatro Oprimido, em meio ao Teatro-Fórum (plateia decidiu quem ia para o inferno e o céu) e o Teatro Mito (encenação do que há de verdade nos contos de fadas). A cia não poupou tecnologia, utilizando o ciclorama para projeção do cenário virtual, ou cenografia visual. Recurso este, raramente utilizado em Companhias e Grupos de Teatro do Estado de Goiás. Ótimas projeções do cenário e excelente projeção no espelho na estória da “Branca de Neve e os sete anões”. A utilização do cenário virtual dá mais realidade à estória encenada e é mais econômica, tendo como único ponto negativo, uma perda da qualidade da iluminação cênica. Ótimo trabalho de marcação, sendo queimada apenas, no momento da “cadeia alimentar”. Momento este em que a Branca de Neve, levanta do chão pra ser julgada e fica literalmente e completamente na frente do personagem Jesus Cristo. E depois veio o lobo mau, que levantou do chão pra ser julgado e ficou literalmente e completamente na frente da Branca de Neve que estava completamente e literalmente na frente do personagem de Jesus Cristo. Retirando as blasfêmias contra Jesus Cristo e outras divindades, o texto dramático é excelente, com presença de cacos, do confidente e do coringa. Figurino, sincronicidade e coreografia perfeitos. Tendo como exemplo o espetáculo da flexibilidade corporal, no momento em que o lobo mau acaba com os porquinhos. Quebrando a quarta parede e provocando catarse na plateia do início ao fim, a peça teatral “Contos Desencantados” de gênero comédia, se encerrando em Auto; vem para desbancar alguns atores que se dizem ser profissionais.

        Letícia Luccheze.

 

 

DISTRITO ZERO
Sem Nome Companhia de Teatro

        Advogados sobem ao palco, para acordar a população de sua loucura insana, instalada em sua alma e aprisionada em seu próprio corpo. Maquiagem, cenário, sonoplastia, figurinos e iluminação excelentes. Foi mágico ver o preto se transformar em roxo, em meio ao trabalho de corpo e caracterização física dos personagens. Em todos eles, nenhum detalhe passou despercebido, sendo cada um acarretados de fortes signos, já iniciavam o contar da estória. Brancos a cadeira, os tamboretes, a mesinha do telefone, se transformaram no ápice da loucura humana, enclausurados no hospício interno. Mesa, flores, velas vermelhas, carregando o signo forte do desejo, da violência, do sangue e da destruição. Mas foi o azul, cor fria, que tomou conta, predominou no figurino, no cenário e na iluminação. Cor esta, que traz em seu signo a melancolia, a dor, o choro e o pranto. Acarretados em muitos homens presos em suas próprias prisões. O homem é um ser perfeito, que consegue ser ao mesmo tempo o seu prisioneiro e o carcereiro. A este tipo de comportamento, nem psicólogo, nem psiquiatra, nem remédios dá se jeito. Homens se prendem por modismos e enlouquecem, homens se prendem por estética corporal e enlouquecem, homens se prendem por bens materiais e enlouquecem, homens se prendem por sexo (incesto) e enlouquecem. E por muitas vezes este homem acha ironicamente, que um simples remedinho, resolverá todos os seus problemas. Aos poucos o seu próprio corpo aprisiona a sua alma que morre. E assim, vão um por um, sentando em sua loucura, tentam se acalentar no chuveiro das lágrimas, da dor, da insanidade que cai desenfreado e constante. Tudo isso sobre um pano de terra preto, signo da introspecção, do terror, do luto e da morte. Como deve ser, ficar antecipadamente, de luto de sua própria morte? Muitos de nossa sociedade estão morrendo, já morreram e tentam continuar caminhando em forma de zumbi vivos. Sendo que cada qual em seu distrito zerado, nulo, comum, sem acréscimo, sem vida. Nem precisamos ir ao cinema, para assistir filme de mortos vivos; basta nos olhar minuciosamente em frente a um espelho. E aí, entendeu alguma coisa, ou enlouqueceu no meio das palavras? Assim é a peça teatral “Distrito Zero”, onde na insanidade de coisas que a muitos se parecem comuns, são pura realidade de uma loucura compartilhada. Assista e você se identificará; pois somos apenas pessoas enlouquecidas por coisas fúteis, vivendo juntas num hospício aberto.

Letícia Luccheze.

 

 

FANTASMA DA MINHA SOGRA
Companhia Teatral Carlos Moreira

         O espetáculo começou com um espetáculo da quebra da quarta parede que foi diferente do comum; pois fazia parte do comum de um, ou outro espectador. Com o início da peça em meio a sonoplastia, o celular do personagem Caio toca e ele atende. A quebra se deu por conta, dele estar sentado na plateia, além de mencionar no celular que estava em um teatro. Este comportamento se repetiu e grande parte da plateia pensava que era um mero espectador, que esqueceu de desligar o celular e que não desconfiava batendo papo no mesmo.
Prova disto é que um espectador chamou-lhe a atenção. Espetacular fusão de um personagem com a sua plateia. Apesar de algumas marcações serem semelhantes a outras apresentações em outras cias, me desculpe Ronaldo Ciambroni, mas a montagem da Companhia Carlos Moreira foi a melhor apresentada. Em destaque a ação exterior do Carlos Moreira, ator e dirigente da cia; pois ele nos deu um banho, não foi mesmo uma lavada do que é uma insigne encenação. Deixou claro do porquê é dirigente de uma das melhores companhias teatrais do estado de Goiás. Sendo assim, todos os atores, sem exceção, que fizerem uma ponta, ou um protagonista em qualquer uma de suas peças deve fazê-lo com o mesmo nível de excelência. Prova disto foi a atuação da atriz Sandra Clecys na personagem Carolaine, a fez com o mesmo mérito de seu colega de trabalho e diretor.
         Ambos com expressões faciais e corporais perfeitas, pois afinal “o corpo fala” e este tem que falar mais que o som transmitido pelas cordas vocais. O ator por excelência ao pisar nas quarteladas, deve se transformar em pura caricatura da realidade. Vale a pena conferir a peça “O fantasma da minha sogra”, a gargalhada é garantida em um espetáculo de cena fixa, desfecho inusitado e em meio ao seu tempo dramático não só lhe fará ter empatia pela trama, como também a ser invadido na Arte do fazer teatral.

         Letícia Luccheze.
 

 

DÚPLICE

Rodrigo Cruz e Rodrigo Cunha 

 

 

Até onde vai o limite do corpo humano? Teatro puramente físico, banhado a percussão corporal,  assim é Dúplice. A autora e diretora teatral Viola Spolin, marcou presença na peça duas vezes, em meio a um jogo teatral; o qual até o iluminador Rodrigo Horse participou. Onde se encontra o homem no mundo das crianças? Pois até então se pensava que era as crianças que se encontravam no mundo dos adultos. Pois a peça levou a uma reflexão do contrário, em que é o homem que se encontra no mundo das crianças. Pois eles tratam problemas, conflitos, questões do dia a dia e até outro adulto com comportamentos infantis. Eles brigam, brincam, fazem rilinhas, fazem as pazes, disputam, emburram entre outros. E neste universo, de forma súbita, as crianças da plateia tiveram uma catarse, seus olhos brilharam e as gargalhadas foram inevitáveis. As gargalhadas das  crianças são tão sinceras e de coração puro, que compunham uma sinfonia para os ouvidos dos adultos. Como é gostoso ouvir uma criança rir. O interessante é que no meio das gargalhadas delas se ouvia uma única gargalhada de um adulto, em específico a de uma mulher. Seria a única adulta presente que percebeu como nós, os ditos adultos tratamos a maior parte das questões de nossa vida com comportamentos infantis? Seja o que for todos riram, menos os adultos. Também se rissem, seria declarar falência de um comportamento que vem ultrapassando gerações. Talvez seja melhor o adulto abaixar para ouvir o que tem a dizer uma criança. Mais mesmo neste comportamento, o elenco mostrou que apesar dos pesares, dependemos um do outro, para nos amparar nos momentos difíceis, para compartilhar, para sermos cúmplices das alegrias, para também brincar e viver essa vida maravilhosa. Não somos ilhas, somos pontes. Na peça o plano baixo, o Teatro Gestual também marcaram presença junto com a dança. E quando a sonoplastia se apresentou, ela se tornou uma figurante, perante a tamanha grandiosidade que estava sendo a percussão corporal. Percussão corporal é produzir sons com timbres corporais, “é batucar no próprio corpo”, é transmitir e comunicar através de sons vindos, produzidos através do corpo. E isto levou a plateia novamente a uma reflexão, de como é poderosa e gritante a nossa comunicação corporal e a comunicação vocal, não necessariamente a da palavra falada.  E 99% da sonoplastia foi feita através dela. Excelente fotografia, excelente sincronicidade, excelente marcação, excelente ações exteriores, excelente direção, excelentes interações com a plateia em meio a olhares de “sedução”, ou não e nem precisa ser mencionar o excelente trabalho de corpo do elenco. O suor nos atores não pingavam, ele jorrava feito torneira aberta. Mais tendo visto que estamos falando de dois homens, um graduado em Educação Física e o outro em Teatro. Vale a pena conferir a peça Dúplice e desafiar a si mesmo a prestar atenção na peça e não no elenco.

 

Letícia Luccheze.

 

 

O SUMIÇO DA CARROÇA
Cia D’Humor

 A cia, ou grupo que decide realizar uma apresentação em cena aberta, deve prever questões como chuva, ventos e localização, ou localizações da platéia entre outros. Mas não foi o que foi ocorreu; pois um vento sorrateiro resolveu brincar de pique-pega com o cenário, o colocando todo abaixo. Solução? Colocaram duas pessoas da equipe técnica para ficar ali, de pé, ereto, no Sol, segurando o cenário o espetáculo todo, sendo estes vistos pela plateia. Eles estavam ali, em cima do palco, junto do cenário, dos atores da estória contada. Espaço dramático nem se fala; pois foi pro chão junto com o cenário. Mesmo assim, o mesmo vento por vezes passava sorrindo da situação entre uma pessoa e outra da plateia. E em falar nisso, por que a equipe técnica ocupava 50% dos locais de acento que deveriam ser todos destinados a plateia? E por que o cenário estava montado justamente na direção destes acentos ocupados exclusivamente pela equipe técnica? Afinal, o espetáculo era para o público ali presente no parque Flamboyant, ou era para a equipe técnica? Temos que rever conceitos, ideias e questões como a de formação de plateia. Um item obrigatório ao se apresentar em cena aberta é o do uso de microfone. A ausência dele é a mesma coisa de um ator subir no palco sem projeção vocal. Compreendo que ocorreram problemas com alguns microfones e o elenco resolveu atuar sem, mas você também me compreende que ocorreu aí de forma clara, uma onda de despreparo e falta de prevenção? Agora me responda, quem é o responsável pelos erros e acertos contidos numa apresentação teatral? A preparação corporal do elenco, a marcação e a sonoplastia excelentes. Mais o que mesmo a sonoplastia fazia em cima do palco? Creio que está virando virose mostrar ao público que a sonoplastia será ao vivo, passando a ideia de que eu sou o bam, bam, bam. Só tem fundamento da sonoplastia estar no tablado, se os personagens fizerem uso dela durante a encenação e não se os atores que estão fora de cena, ocupar o lugar do músico dando continuidade à sonoplastia. Do título da peça (carroça), a sinopse (trupe de mambembes) e a maquiagem (meia máscara) a produção deixa claro a presença do teatro italiano através da Commédia Dell’Arte. E de acordo com a ficha técnica esta presença tem início no texto dramático. Mais creio que mesmo tendo partido dos canovaccio da Commédia Dell’Arte, quem escreveu a peça cometeu um deslize? Pois em um momento da estória o Capitão Angu apaixonado pela Isabela pede a mão dela em casamento para o seu tio Seu Tadeu. Em seguida a própria Isabela entra em cena e declara ao Capitão Angu o seu amor por ele. Até aqui está tudo bem, mais nas cenas seguintes Isabela comenta com Maricota o desejo de casar, mais não tem um noivo para tal. Uai? Ela não tinha declarado anteriormente o seu amor ao Capitão; o qual correspondia o mesmo sentimento? A contradição prossegue na próxima cena, em que entra o Capitão Angu pedindo conselhos para Caroço, de como paquerar as mulheres e este promete lhe ensinar uma mandinga. Uai? Ele já não estava apaixonado pela a Isabela e até já tinha pedido à mão dela em casamento para seu tio? Zelo ao escrever, tendo atenção a Língua Portuguesa, no que se refere às características de um enredo. Mais um fato curioso, interessante e rico, desenvolvido pela cia na peça teatral, foi a contação de duas estórias ao mesmo tempo. Sendo uma dentro da outra. Ao mesmo tempo em que era encenada a estória da trupe, era encenada também a estória de Hamlet. Excelente recurso para trabalhar os neurônios dos pequenos. O que nos remete ao livro “O outro lado da história” de Rosana Rios; o qual também conta uma estória dentro da outra. Vale a pena conferir a peça “O sumiço da carroça” e se fartar na Commédia Dell’Arte e sentir a magia de estar dentro de duas estórias simultaneamente.

 Letícia Luccheze.

QUÊ ONDE
Máskara 

Ficção científica sob o tablado do teatro Goiânia, inicia no conflito de um diálogo sem desfecho. O que aconteceu com os seres humanos, em meio a armas cada vez mais poderosas de destruição, adjuntas a armamentos biológico e químico? A peça teatral em questão nos remete a essa e demais reflexões que torneiam a problemática. Talvez o último texto de Samuel Beckett para o palco, tende a passar uma mensagem aos homens sobre um futuro. O que restaram da humanidade vivem na escuridão, confusos, perdidos, sem saber com exatidão que dia, ano e estação estão e somente sob a luz se comunicam e conseguem respirar melhor. A única coisa que resta a fazer, ou se ocupar é saber o que o outro tinha a dizer. Que talvez seja algo a respeito da superfície, de poder viver lá fora, o que os fazem cometer algumas ações insanas regradas pelo desespero. Acho que conheço essa estória... Isto não está parecendo “Os doze macacos”, filme de ficção de 1995? A peça teatral fala sobre isso? Não! Sim! O quê? A única coisa que se sabe com certeza é de que se trata dos cinco, os únicos cinco que existiam. Como diz o próprio release da peça “o texto abre leituras múltiplas...para um espectador criativo...” A única coisa que se sabe com certeza é de que se trata dos cinco, os únicos cinco que existiam. O quê? Eu repeti a frase? Mais incrivelmente é que a peça discorre sobre um único diálogo que também se repete do início ao final. O que tem de incrível nisso? É que apesar do diálogo ser o mesmo, ele não se repete. Ele não se repete, apesar de ser o mesmo diálogo. Como assim??? A entonação, a expressão vocal, a intenção, o interlocutor, as respostas deles, tudo isso junto em relação à ação passada, que não é a mesma não se repetem apesar de terem um mesmo questionamento. Como assim, você ainda não entendeu???  Bem vindo então ao Teatro do Absurdo e o seu maior representante é Samuel Beckett. Figurino, iluminação e sonoplastia impecáveis, perfeitos, deslumbrantes. Estes convertiam facilmente o espaço cênico no espaço dramático. O trabalho de corpo do elenco, em meio a suas ação exterior fazia libertária a imaginação dramática dos presentes. Também pudera, tudo estava sob a direção do doutor em Teatro Robson Corrêa de Camargo. Vale a pena conferir a peça teatral “Quê onde”, para ver a maravilha que é este dramaturgo e perceber como dentro da caixa mágica ele, incrivelmente transforma as mesmas palavras em palavras diferentes. Porque de acordo com Jakub Szczesny “Não há paredes e nem obstáculos, para a criatividade, quando o assunto é arte”. E talvez a incoerência, o nada deste absurdo seja apenas um paradoxo, dentro da  sincronicidade da realidade humana.

 Letícia Luccheze.


RETICÊNCIAS

GRUPO DE TEATRO INDEPENDENTE - G.T.I.

 

Biografia familiar em cena, assim é Reticências, inspirada na peça teatral “Longa Jornada Noite Adentro” de Eugene O´Neill. O espetáculo inicia com a foto típica de uma família e encerra com outra, agora da real família com desencontros, conflitos, egocentrismos, vícios e loucuras. E esse tipo de família problemática, presente em século passado, ainda se apresenta em nossa atualidade. Em meio a perdas e ganhos, creio que perdemos, por nos mantermos estagnados à tantos anos e não termos evoluídos no quesito família e como lidar com nossos vícios e problemas perante a vida neste seio. E isso, vem causando o desgaste da família, o seu descrédito e a sua destruição. Sendo a família hoje, vista por muitos como “uma instituição falida”. Levar aos palcos um drama é ótimo para mostrar talentos cênicos, mas é um desafio para qualquer cia e grupo em conter a plateia de não olhar para o relógio. Reticências é um dos poucos espetáculos, em que a alta é valoriza, se transformando na parte externa da casa. Por ela os personagens passavam ao chegarem da rua, o que era visto pelo público através das janelas. O emprego do Teatro de Silhueta na entrada direita que dava para a cozinha e os quartos, configurando o uso de morfina pela matriarca, foi belo e rico como sempre é esse gênero teatral. Mas vale ressaltar, que a plateia do canto, do lado direito não pode compartilhar dessa riqueza, pois não puderam ver o que ocorria. O espetáculo teve cena fixa, mas é necessário zelo e cautela na cenografia de época; pois a estrutura de alguns móveis e o próprio aparelho telefônico não condiziam com o século da trama. Na peça teatral em questão, podemos ver o valor de um silêncio e como poucos de nós humanos, o valorizamos. Em dois momentos em que pai e filho discutiam, houve um silêncio total e geral, o que fez com que todos presentes mergulhassem cada vez mais no drama familiar. Perfeitos momentos cênicos, onde o silêncio em dois momentos se transformou em protagonista e roubou todo o espetáculo. A semiologia teatral em meio aos signos e significados marcou presença, em meio os cadeados. E a iluminação cênica mostrou ser fundamental em um espetáculo teatral e como a sonoplastia ela faz parte da trama e ajuda a contar a estória e/ou história. A peça em questão nos deixa claro também que quando uma peça teatral é de época, fica inviável a quebra da quarta parede. Caso contrário todo o trabalho de ambientação em meio a figurino, cenografia, iluminação, sonoplastia entre outros, que tem como objetivo converter o espaço cênico no espaço dramático vai por água abaixo. Pois a todo momento você quebra a imaginação dramática da plateia, arrancando-a daquele espaço dramático e trazendo-a bruscamente para a realidade vigente.  Vale a pena conferir Reticências e se permitir a voltar a ser uma criança, de tão compenetrado que você ficará. Pois além de ser um excelente espetáculo, em nenhum momento você verá os atores; somente os personagens. E isso se deve a um elenco de primeira, que no individual cênico de cada um, se compôs o coletivo, o grupo e gerou esse espetáculo de dramaturgia. Tendo como destaque as ações exteriores dos interpretes Ivan Lima e Valéria Livera.

 

Letícia Luccheze.


 

COMIGO NÃO TEM POTOCA

A.C.T. Casa do Teatro

 As apresentações teatrais são agrupadas de acordo com características comuns e a este agrupamento se dá o nome de Gênero Teatral (tipo, estilo de peça). Se nos filmes temos o conhecimento de seu gênero, é fundamental que a plateia antes de ser formada, saiba o gênero da peça teatral também; para que assim não se frustre, saindo do teatro com impressões errôneas sobre esta arte. Mais para dizer o gênero de uma peça, por vezes é necessário mais que uma palavra. Exemplo disso é na peça “Testemunhas” da Companhia Paz em Cartaz, o seu gênero é monólogo, auto e drama. Já na peça “QQISS” do Grupo Sonhus Teatro Ritual, o gênero é pantomima, animação e drama. E dentro desses gêneros teatrais encontramos o Stand-up, os Contadores de Piada, e os Contadores de Estória e Causos. Nos quatro ocorre literalmente a quebra da quarta parede em praticamente cem por cento da atuação, colocando a plateia como protagonista. E é dispensável dizer que são monólogos, ressalvo que todos são executados por apenas um ator. Enquanto os contadores de piadas contam literalmente piadas fazendo uma costura entre elas; o Stand-up faz piada do que ocorre na atualidade fazendo a costura. E os contadores de estórias e causos se detém em apenas uma estória, ou história. Os profissionais que atuam nestes quatros gêneros é denominado de ator e por isso, tem a obrigação de utilizar os recursos vocais e corporais na troca de personagens. No espetáculo “Comigo não tem potoca” o gênero é contador de piada, com isso é dispensável dizer que seria comédia, ou farsa. Agora se alterar a ordem dos fatores e dizer que o espetáculo é comédia, aí teria que especificar dizendo que é um monólogo e complementar que será uma contação de piadas. Tenha zelo para não selecionar em seu repertório piadas conhecidas do grande público e o ideal é você criá-las. A diferença de um comediante e de um humorista é esta. Enquanto o comediante apenas interpreta um texto cômico escrito por um humorista, o humorista escreve os textos cômicos e pode interpretá-los também. Na peça em questão a comediante Luzia Mello, faz jus da profissão levando ao palco os recursos de cenografia, iluminação, figurino, adereços, tipos de vozes e construção corporal dos personagens. Ela o faz com perfeição, sem perder a concentração e nenhuma características das personas interpretados. Isso deixa claro que ótimo trabalho feito nos palcos se reflete fora deles, onde a sua atuação é como professora teatral. Agraciado está o Colégio Marista! O recurso cenográfico de uma “casa” vermelha em tecido suspenso, em plena boca de cena, preso pela abraçadeira e por pesos, foi reaproveitado em camarim e coxia. E a atriz o fez com excelência, tendo o cuidado e zelo de não provocar o seu balançar nas trocas de figurino. Vale a pena conferir a peça “Comigo não tem potoca”, a sinopse mesmo diz  que você verá uma “metamorfose humorística”; além de ser uma oportunidade para os estudantes de Teatro verem na prática o que difere o contador de piadas do Stand-up.

 Letícia Luccheze.

ANDRÉ

Cia Mínima

E ele atravessou a cidade com um carrinho de mão, tijolo por tijolo, assim o teatro foi erguido. Encantador e totalmente deslumbrante, ter a oportunidade de estar dentro do teatro Otavinho Arantes (Teatro InAcabado) e poder prostrar o respeito e admiração em meio a olhos minuciosos e perplexos, que tentavam visualizar sob aquela massa de cimento, cada tijolo posto. Representando assim a configuração física de seu criador. Momento incalculavelmente único e insubstituível. Esse sentimento de euforia e excitação transcendeu as paredes do edifício e tocou o anímico dos presentes e conhecedores da história do Teatro goianiense. O corpo já entorpecido e pré-disposto, após goles no cálice de Baco, deu espaço a André. Você já viu uma apresentação teatral, onde o público passa pelo camarim, entra pela coxia e fica no proscênio? Você já viu uma apresentação teatral, onde o público está literalmente na cena da estória, ali, atuante, em cima do palco com o ator? E foi esta disposição que encontramos no espetáculo em questão, o que nos remete a um teatro de Espaço Múltiplo, onde o espaço cenográfico não é delimitado, retirando qualquer parede e barreiras que possam impedir uma ativa e continua participação de quem assiste. A mesma disposição é encontrada no espetáculo “Bodas de sangue” da Companhia Teatral Cabessa de Vaca. Esta disposição é o mesmo que você ao assistir a um filme de terror ouvir e sentir a respiração do seu assassino. Isso é um espetáculo! E a única das Artes capaz de proporcionar isso é o Teatro. A ação exterior do interprete Pedro Vilela deixou a plateia em momentos comovida, assustada e perplexa, ao perceber que no trabalho cênico é exigido o tudo e o todo que um ator possui. E se ele não interpretar com o seu corpo e o seu anímico, essa mesma plateia será incapaz de ver o personagem, se prendendo apenas no ator. Volto a afirmar que a Companhia Mínima é composta somente de atores profissionais e lá não há espaço para amadores. Parabéns ao dirigente da cia Franco Pimentel, que caminha com excelência. A sonoplastia criou uma trilha sonora lindamente bela, que foi fixada na mente dos presentes. A iluminação perfeita e um destes momentos foi à representação do trem que passava, vagão por vagão e se ia. A facilidade do uso de globo e máscara nos holofotes para a criação de duas janelas, foi substituído pelo mais difícil, que foi a presença destes objetos cênicos. Mais a sua presença tornou a cena mais real. E um dos pioneiros em tornar a cenografia teatral próxima à realidade é Marcos Fayad. Pois praticamente em todos os seus espetáculos a cenografia é “realista”. Mais cuidado e zelo aos grupos e cias que tentarem unir ambas as Artes, com o uso do ciclorama, do data show entre outros na construção de um cenário virtual, ou na complementação do mesmo; pois a plateia não pode ver que você está “sem sinal”. O espetáculo em questão contou com cena fixa e todo o enredo girou sobre o sentimento da raiva. Sentimento este, que por muitas vezes o permitimos que faça parte de nossas vidas, até por anos a fio. O consumimos como uma pílula diária e assim somos consumidos também por ele, de dentro pra fora. Em alguns momentos o personagem dizia que o único que perde com a raiva é somente aquele que a sente. E quem deixa este sentimento permanecer em sua vida, está se afastada cada vez mais do amor. E ainda dizia que o amor é como chuva que cai e molha a todos, mas por causa do sentimento da raiva, muitos não conseguem se embriagar desse sentimento nobre. E pessoas assim são como uma árvore seca. Mais a partir do momento em que nós pararmos de dar importância a essa raiva, que dorme e acorda conosco, veremos nossas árvores começarem a dar flores. Vale a pena conferir o espetáculo “André” e você perceberá como somos os únicos que nos auto destruímos. E após o espetáculo compre o livro “Não faça tempestade em copo d’agua – e tudo na vida são copos d’agua – Maneiras simples de impedir que coisas insignificantes dominem sua vida” de Richard Carlson. Que você tenha um bom espetáculo e uma excelente leitura. E lembre-se, somo todos dependentes do amor.

 Letícia Luccheze.

À NOITE DA COMÉDIA

Grupo de Teatro D.N.A.
 

                Teatro amador sob o tablado das “goianetes”. O título da apresentação teatral prometia uma noite de risos e gargalhadas, dentro do gênero teatral que é a comédia; o qual se refere a um riso cerebral. Mais o que aconteceu, foi à noite de erros, improvisos, desencontros, despreparo e uma afronta ao Teatro profissional. É o tipo de espetáculo, que dá vontade de levantar e ir embora, antes mesmo do seu término. Tudo começou desde a divulgação do horário da apresentação, que dizia: “a partir das 20 horas”. Bom, então pode ser que o espetáculo comece às 20:01, às 20:15, às 20:30, às 20:50. E aí, que hora é pra chegar ao teatro? A plateia em massa chegou próximo das 20 horas e teve que aguardar o elenco que ainda não estava preparado, para iniciar a apresentação às 20:45 pontualmente. A impostação foi totalmente descartada do início ao final do espetáculo. Sendo este iniciado aos gritos, aos berros com o poema de Caetano Veloso. Agora já não sei se caiu bem a atriz Ana Claudia, iniciar o espetáculo jogando merda para todos os lados. Pois esta de conotativa poderia passar nos primeiros erros em denotativa. Qual a ligação do poema musicalizado “Merda” com o contexto das esquetes? Mesmo que o espetáculo seja apresentado por meio de esquetes, todos os quadros têm que ter um ponto de encontro. Mais afinal, qual o objetivo cênico de se colocar um cantor pra cantar músicas diversas e variadas, sem ligação nenhuma com o teor das apresentações? Colocar uma apresentação teatral no palco não é só ter uma ideia. Não é só falar: “Vamos montar uma peça!”, “Vamos montar um grupo, ou uma companhia de Teatro!”. Para isso, requer um duplo investimento, financeiro e intelectual. Para manter um grupo, ou uma cia demanda verba para a manutenção da mesma e para a montagem dos espetáculos. Afinal, ser ator é profissão e não trabalho voluntário. E não se pode ousar a subir no tablado sem saber Teatro. Estude primeiro, a sua prática e a sua teoria; pois um depende do outro para se fazer a excelência. E não basta, somente aquelas (lembra?), aquelas poucas aulinhas de Teatro que você teve e abandonou há anos atrás. E ainda, encontramos pessoas que ao ter iniciado o estudo em Teatro, começou a subir nos palcos, aí se achavam que já sabiam de tudo, se achando ser o bam, bam, bam e assim largaram o estudo. Que tragédia que não era grega. E estou falando é de ator amador. Não envergonhe a classe, seja sério, faça um trabalho sério e coeso. Vou citar alguns itens presentes na prática do ator amador que foi presença marcante no espetáculo em questão: Não houve mudança de timbre e postura dos personagens diferentes feitos pelo mesmo “ator”. Teve “ator” que não teve apuro na caracterização do seu personagem e por vezes nem de figurino trocou. Gritos substituíram a projeção vocal. Houve falta de sensibilidade ao ritmo do trabalho, ocasionado a constante quebra de cenas, fazendo o espetáculo morrer consecutivamente. Foi nítida a falta de organização, antes e durante, como em momentos, foi também nítido um trabalho exibicionista, individualista dentro de um trabalho que tem por essência o trabalho em grupo. Tudo isso se resume em um comportamento superficial com o trabalho. Em vários momentos não foi possível ver o personagem; pois era só o “ator” que era visto. Creio que o espetáculo não teve diretor, se teve o elenco então não aceita direção. E acredito que se tivesse alguém ali, com estudo em Teatro, esses amontoados de erros nunca teriam acontecidos. Mais no meio disso tudo, há uma luz, que pode ser notada nas encenações do ator Alessandro Pereira.

 Letícia Luccheze.

 AMOR POR ANEXINS
         
Grupo de Teatro Guará

Colcha de retalhos, assim é a peça teatral “Amor por Anexins” de Arthur de Azevedo. Cada retalho um provérbio costurado e juntos em harmonia foi criado um belo texto dramático. Infelizmente não é o que ocorre com algumas colchas de retalho teatrais de nossa atualidade. Se pegam retalhos de piadas sexistas, de conflitos conjugais, de textos que circulam na Internet e tentam fazem uma peça teatral. E em sua maioria os retalhos são maus costuradas, não tendo sintonia e sincronicidade  em meio a suas cores, tamanhos e até no tipo de tecido utilizado. Se Teatro não é pra qualquer um, imagina então escrever.  O teatro é conhecido como caixa mágica, porque nele se lida com o imaginário, em meio a ilusões, para que desperte uma catarse em quem o vê. Devido a isso, mesmo com a ausência de cenário em uma peça que ocorre dentro de uma casa, não se pode confundir a plateia com a saídas e entradas do elenco. Um lado específico deverá ser a porta que dá pra rua, o outro lado a porta deverá dar para as demais dependências da casa. Mais tem ator que vem da rua e entra na casa pelo lado da porta que dá para a rua (correto), mas ao ir embora ele sai pelo lado que dá para as dependências da casa (errado). Isto confundi a plateia de forma que ela passa a não entender mais o enredo. É a mesma coisa de uma encenação ocorrer dentro de um carro, sem ter a presença física do automóvel (afinal, isso é Teatro!), o ator não pode sair dele, sem antes abrir a porta. Na peça de Teatro em questão a cena era fixa com cenário de gabinete representando uma casa com um cômodo, contendo duas janelas, três paredes e duas portas. Mas mesmo com esse  recurso físico, não impediu que o elenco ora entrasse para o interior da casa por uma porta, ora entrasse pela outra. Sem falar que eles chegaram ao ponto de passarem pelas paredes. E saiam e entravam da casa pelas paredes e entravam e saiam pelas paredes. As porta já eram obsoletas. Pra que porta se se pode passar pelas paredes! Deverá ter zelo e cuidado também para o tempo de duração de uma peça de teatral. Quebrar a quarta parede é importante, mas manter a encenação sem a quebra dessa quarta parede também é importante. Isso vai depender do tempo dramático que desenrola a trama. A quebra dessa quarta parede da peça “Amor por Anexins” foi rica e excelente. Mais tem como quebrar a quarta parede sendo a peça teatral de época? O cenário, o figurino, a iluminação e as próprias palavras dos personagens convertem o espaço cênico, no espaço dramático. Por isso podemos assistir Hamlet no teatro Goiânia Ouro, mas o espaço dramático onde a peça é desenvolvida é na Dinamarca. Então, se a história de qualquer peça teatral ocorre há séculos passados, ou de anos futuros não se deve quebrar a quarta parede. Pois se converteu todo aquele espaço cênico no espaço dramático, cada vez que é quebrada a quarta parede, se quebra junto o espaço dramático. Sem falar que o espaço dramático da peça Anexins já vinha sendo quebrado desde o início devido a presença de uma bateria no tablado. Arthur de Azevedo faleceu em 1908 e a bateria foi criada muitos anos depois. Qual era mesmo o motivo para a sonoplastia (bateria e outros instrumentos musicais) estar em cima do palco junto com os atores? Será que era para mostrar a plateia que o som era ao vivo e não no play/pausa, play/pausa de um aparelho de C.D? Nada contra se mostrar isso, mais a sonoplastia (bateria e outros instrumentos musicais) deve ficar do lado direito, ou esquerdo de uma das rampas e não em cima do palco junto dos atores. Mais na peça em questão até se justificou o porquê da sonoplastia estar no tablado; pois no decorrer da estória um dos personagens utilizou a bateria. Mais errado por ela auxiliar na quebra do espaço dramático, devido a um personagem de um século passado estar tocando um instrumento da nossa atualidade. Mais vale a pena conferir a peça “Amor por Anexins”; pois você se deliciará com a riqueza da cultura popular em meio aos provérbios e de brinde se encantará com a ótima impostação e o excelente trabalho de corpo do ator Vitor Duarte. 

Letícia Luccheze.

BALADA DE UM PALHAÇO
Grupo de Teatro Arte e Fatos 

Em cena fixa o Teatro levou ao palco a vida de um artista da Arte Circense, especificadamente a do palhaço, que faz todos rirem e ninguém sabe se ele está feliz. Momento este que nos remete as Artes Audiovisuais no filme “O palhaço”. Mas em contra partida, em um momento da trama da peça, é dito que o palhaço é apenas um ator no palco e que está ali é para encenar. O espetáculo iniciou com a quebra da quarta parede, pelos atores vindo da plateia tocando e cantando. O soar grave do tambor tocado pelo personagem Bobo Plin, se fundiu, ao compasso das batidas do coração. E a cada bumbo ouvido, todo o corpo sorria com o pensamento latejante, eufórico e excitante de: “Como eu amo Teatro”, “Como eu amo Teatro”... A peça teatral mesclou comédia e drama em um texto dramático de tirar o chapeu. É realmente Plínio Marcos fechou com chave de ouro. O espetáculo contou com a presença de Teatro de Silhueta em meio a uma trilha sonora ótima, marcação e figurino excelentes e impostação espetacular. Que vozes eram aquelas que desbravavam sem medo algum e invadiam e dominavam cada espaço do teatro? Inigualável e que sirva de alerta para alguns atores que só atuam com o uso do microfone. Agora entendemos o porquê de uma das maiores universidade do Brasil ter Danilo Alencar em sua folha de pagamento. É um diretor por excelência. Seus espetáculos nós remete a uma característica do Happening, onde todas as suas apresentações não se repetem. Isso faz com que o público possa assistir a uma mesma peça teatral como se não tivesse visto antes. Proporcionando assim, novas leituras, novas visões, novas reflexões, novas formas, novas saídas e novas soluções do mesmo assunto. Excelente trabalho do elenco. Bruno Peixoto não só fez um ótimo trabalho de corpo, como também às assonâncias em algumas palavras e o seu glorioso “aném” arrancaram enormes gargalhadas. E o interprete Edson de Oliveira a cada momento em que fazia uma percussão corporal, nos levava em sua excelência no campo do Teatro Gestual, configurado no “Dinho o namoradinho”, performance esta apresentada em cena aberta, no Centro Cultural Martim Cererê em comemoração ao dia do Teatro. Somente a sonoplastia deverá ter cuidado, pois a música deve ser pano de fundo para a voz do ator e não o inverso. Mais nada como ter o privilégio de ver a Federação de Teatro do Estado de Goiás (FE.T.E.G.) presente ali no tablado, o passado e o presente juntos, em prol da arte que é o Teatro. Vale a pena ver a peça teatral Balada de um palhaço e ela lhe mostrará de forma comprovada, como o Teatro é um espetáculo e que temos que mudar alguns hábitos comportamentais e acrescentar nessa mudança idas ao teatro.

 Letícia Luccheze.

OLHO
Cia Teatral Oops

              Monodrama, ou monólogo é um gênero teatral, onde toda a encenação é feita por um só ator. Este poderá interpretar um único personagem, ou vários ao mesmo tempo. E nesta diversidade cênica, Edgar Allan Poe, exímio na literatura de horror, ressurge dentre os mortos, para dar vida ao seu personagem do conto “Coração Delator”, personalizado no corpo do ator João Bosco Amaral. O suspense e o terror dominam e transfiguram totalmente um espaço monopolizado pela comédia; de forma que prendem a atenção e a respiração de todos os presentes. Cenário perfeito em meio aos seus signos e significados, onde o personagem inicia derramando na taça, o sangue de sua vitória, fazendo assim, silenciar a loucura incontrolável daquele olho. Ele o bebe e nos narra o seu conflito e o desfecho dado a tormenta. Olho, olho, presente e ainda vivo em toda narração, bem no meio do palco, enorme, redondo, encarava a plateia de forma a enlouquecê-la também. Maravilhosa iluminação cênica, que na insanidade da intolerância humana, deixa os holofotes e põe-se de pé, no palco, se tornando um personagem vivo. E entre mortos e vivos, o cenário, a sonoplastia aterrorizante, a iluminação e as ações exteriores inauditas do ator, colocaram o espectador dentro de uma casa dos horrores. E quem é que não gosta de assistir um filme de terror? Mais o filme te deixa confortável e a salvo; pois está longe do assassino. Mas uma peça de Teatro te coloca na cena, junto com ele. E o assassino, poderá descer do tablado a qualquer momento e te pegar. Correr? Pra onde? Se você está trancado com ele dentro de um teatro. Morrerá, em meio aos seus gritos ensurdecedores, provocados pelas paredes acústicas. Quer sentir medo e ficar aterrorizado com o assassino frente a frente? Então vá ao teatro e assista “Olho”.  
 

Letícia Luccheze.

Q.Q.ISS?!
Grupo Sonhus Teatro Ritual 

Sematologia é a ciência que estuda todos os sistemas de símbolos e signos. Dentro desta classe está a linguagem de sinais e que por sua vez o Teatro Gestual. Neste gênero teatral encontramos a mímica, a pantomima, a performance e o happening que é irmão da performance, só que de pais diferentes. O rosto é fundamental para o ator que tem em sua prática o Teatro Gestual e o elenco do espetáculo foi audacioso ao cobri-lo; mostraram assim, que na mímica enquanto a expressão facial fala, a expressão corporal grita. Um exemplo disso foi quando o personagem Pendu se despede de sua “casa” para se aventurar mundo a fora e que mesmo tendo o ator o rosto coberto, todo o resto do seu corpo transmitiu o sentimento daquele momento de insegurança, saudade e excitação. Parabéns ao mestre Miquéias Paz, que caminha construindo outros mestres. No espetáculo em questão o Teatro Gestual andou de mãos dadas com Teatro de Animação. E os atores manipuladores realizaram seu trabalho com excelência. Estando “invisíveis” aos olhos da plateia os bonecos ganharam vida, o palco, o mundo e foram responsáveis pelo brilho nos olhos das crianças e dos adultos. A iluminação cênica se fez presente e cumpriu com perfeição o seu papel de ser e existir. Pois limitou o espaço cênico, criou ilusão para a mudança de tempo e local, desempenhou funções de efeito artístico dando ênfase a atuações do elenco entre outros. Ela foi fundamental para ambientação do espetáculo e junto com a cenografia realizaram o trabalho em equipe que é o Teatro; fazendo a plateia ficar perplexa com a entrada do véu que se transforma em tempestade. Deslumbrante, deslumbrante, deslumbrante momento cênico. Destaque também para a expressão corporal da atriz Jô Oliveira, que interpretando o gavião fez ativar a imaginação dramática de todos. A fotografia do espetáculo foi digna dos cinemas americano. Perfeito, perfeito, perfeito, assim se define a peça teatral Q.Q.ISS?! Se você ainda não assistiu, não deixe passar esse momento e deixe na bilheteria mais que duas moedinhas; pois o Teatro Gestual é de fácil acesso e compreensão até para as pessoas especiais; pois nele não se ouve, só sente.  

Letícia Luccheze.

AMOR  I  LOVE  YOU
Grupo Zabriskie

    Que tal antecipar um dos presentes do dia dos namorados? O amor pode ser um substantivo abstrato, mas tem um poder fortíssimo de mover o mundo e o que se achava estático. E a peça teatral “Amor I Love You”, mostrar um pouco dessa movimentação, que além de ambientar todo o teatro de forma romântica, sedutora e afrodisíaca, converteu todo o espaço cenográfico no espaço dramático dos enamorados. A Música, a Dança e o Teatro se envolveram apaixonadamente, para contar as várias formas em que as pessoas estão se amando hoje. Podendo ser um amor individual, um amor em casal e até um poliamor. Este último se diz respeito a um envolvimento amoroso simultâneo com várias pessoas, de forma responsável e duradoura, onde todos os envolvidos tem conhecimento e consentimento do mesmo. O figurino, junto com a iluminação configurou uma ótima fotografia do espetáculo. E as ações exteriores das reações da personagem Ana Banana, para a plateia e com a plateia, foram demasiadamente perfeitas. Dando destaque a Ana Cristina Evangelista, que realmente respira Teatro. Ela é uma artista que faz Arte, enquanto muitos reproduzem artesanato. Uma coisa inusitada que chamou a atenção foi à venda e o consumo de bebida e alimentos dentro do teatro. Creio que os demais estabelecimentos cênicos deveriam também se atualizar, tendo em vista que a própria maneira das pessoas se amarem sofreu mudanças. Deixemos que realmente fique no passado de um teatro antigo, a ideia do ator ser alvejado por alimentos, afinal, aqui estamos falando é de ator profissional e assim poderemos abrir portas para concorrer com as salas de cinema. Vale a pena conferir “Amor I Love You”; pois a quebra da quarta parede, fará você ter uma catarse em relação a sua forma de amar em meio a situações encenadas pelos personagens Ana Banana e Juca Mole. E para os apaixonados, feliz dia dos namorados.

 Letícia Luccheze.

 

O PEDIDO DE CASAMENTO
Companhia Bandeirante Produções Artísticas

 Comédia é um gênero teatral que tem como o objetivo o riso com caráter cerebral, intelectual, que faz pensar. E a comédia de costumes em questão, retrata sobre os usos, costumes, ideias e sentimentos de um grupo. Martins Pena é um dramaturgo que representa bem este tipo de comédia. Mas quem nos sobe no palco do Teatro Goiânia Ouro em apenas um ato, para representar este gênero é o dramaturgo russo Anton Tchekhov nos personagens de Ivan Vassilievich, Stepan Stepanovich e Natália Stepanovna. Sendo que este último personagem, em um passado não distante, foi travestido pelo ator Ivan Torres pela mesma cia. A peça teatral é cheia de conflitos entre famílias da zona rural no final do século XIX e no seu desenrolar, encontramos uma boa marcação, com a presença do confidente e enormes e suculentos bifes. Tendo em destaque a interpretação de Bruna Balbina e a performance corporal de Eurípedes de Oliveira. Estes brilharam como “estrelas no céu escuro”, vistas a olho nu, no pano de fundo. Somente a equipe técnica deverá ser mais zelosa com a presença da plateia; pois mesmo com as cortinas ainda fechadas, não se deve subir no palco pelo lado direito, cruzar todo o tablado, para entrar para o camarim pelo lado esquerdo. Muito menos tendo como pano de fundo o preto das assas do palco e despontar um rosto branco de forma insiste, para observar a reação do público. Mais vale muito a pena conferir a peça “O pedido de casamento” e perceberá porque os atores são comparados com as estrelas.

 

Letícia Luccheze.

TV INSÔNIA
Cia Teatro Destinatário

 

A sinopse do espetáculo remete a Hugo Zorzetti, em sua peça teatral “Quem te viu, quem TV”, onde crítica a T.V. como a mais poderosa mídia massificante de inertes. Mais “TV Insônia” é totalmente diferente e na sinopse em questão diz o seguinte: “Uma comédia que satiriza a mídia televisiva, seus personagens e seus programas alienadores.”, mas o único momento em que essa sátira se apresenta é quando a personagem Sheila Janete repetiu por duas, ou três vezes a palavra “bagança”. E a plateia só é remetida a desenhos animados e ao programa do Sílvio Santos (S.B.T.), por conter na sonoplastia músicas em questão. E quando se apresenta o pessoal técnico do espetáculo não se fala “quem cuidou da música” e sim da sonoplastia. Em alguns momentos em que o elenco usa a arte da dança, se percebe a ausência de um coreógrafo nos ensaios, como também de marcação. Pois na esquete inicial quando a atriz Jéssika Hannder sai em direção a coxia dançando, ela mete a mão no rosto da atriz Ludmyla Marques que entrava em cena. A marcação em um espetáculo cênico é de inteira importância, não só para o desenrolar da mesma, como para prevenir acidentes e dar um brilho no âmbito ilusório que é o Teatro. Mesmo tendo um microfone como adereço de um dos figurinos, todo e qualquer ator deve estar ciente que impostação e dicção são cruciais sob o tablado. Creio que algumas aulas de trava-língua iriam melhorar de forma significativa a dicção da personagem, que cantou sua música na esquete sobre não ter talentos. Vamos falar agora um pouco de semiologia teatral. É chamado de objeto cênico qualquer objeto que faça parte de uma cena (mesa, cadeira, tapete, vaso, cortina, porta, cama, escadaria, guarda-roupa etc.). E este mesmo objeto é considerado lixo, quando ele polui a ação dramática, não só por estar em um ambiente errado, como também aquele que é posto no tablado e não é utilizado. Ficando ali, parado, como um espectador. O que faziam mesmo aqueles três assentos vermelhos, em plena boca de cena em 95% do espetáculo? Mais vale a pena conferir o espetáculo “TV Insônia”; pois além de ter um elenco desafiador, sem medo da plateia e de se atirar de corpo e alma ao Teatro, ainda conta com um show de interpretação do ator Cristiano Gonçalves, junto com o signo interior da atriz Susanna Gabriella na personagem mãe de santo.

 

Letícia Luccheze.

ERA SÓ O QUE FALTAVA
Cia Carlos Moreira 

Política em cena, arranca risos reflexivos em ano eleitoral. A peça teatral “Era só o que faltava”, de ficção, se tornou Teatro Realista, sendo o encenado, apenas a ponta do iceberg da politicalha brasileira. Saudoso Rui Barbosa, que já nos dizia que a politicalha é “...o jogo da intriga, da inveja e da incapacidade...da criadagem e parolagem, afilhadagem e ladroagem...do envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis...da malária dos povos de moralidade estragada...” Nessa politicagem, se fica até na dúvida, se a peça era comédia, tragicomédia, ou mesmo uma tragédia na vida dos brasileiros, pós eleição. Mesmo com a ausência de cenário bidimensional e uma iluminação cênica, o que de costume vemos nos musicais da cia; na peça em questão, eles seriam e foram, totalmente desnecessários. Devido o clímax ser constante, dentro de um conflito dramático de gargalhadas. Sendo assim, o espaço cênico foi totalmente convertido no espaço dramático e totalmente dramático mesmo, que é a Brasília política. A peça de teatro em questão, devia e deve estar presente nos recintos educacionais, como momento cultural, que tem a capacidade de conduzir os alunos a uma reflexão sociológica e filosófica dentro das ciências políticas. Se você ainda, não foi ao teatro assisti-la, vá, antes que chegue o momento da urna eletrônica. Pois além de ampliar a sua visão a respeito da política no Brasil, você terá a honra de ver uma obra prima, de Mauri de Castro, sendo contracenada por Silvano Nóbrega, Carlos Moreira e tendo em destaque o talento indiscutível de Wilson Araújo para as Artes Cênicas.
 

            Letícia Luccheze.

CARRO CAÍDO.
Cia Nu Escuro.

A cia fez uma ótima adaptação e inserção, da lenda brasileira “Carro caído”, em um texto dramático. Este por sua vez, traz em seu contexto, música, traje típico, artesanato, provérbios, superstições, adivinhações, lendas, mitos, brincadeiras, desafios que é uma luta poética, entre outros. A peça teatral era pura cultura popular. Puro ouro do folclore brasileiro. Isso sim é Teatro com fins educacionais e pedagógicos. As instituições educacionais quer sejam em nível Fundamental, Médio, ou Superior deveriam levar, ou estimular seu alunado a assistir a peça “Carro caído”. Além dos alunos estarem inseridos no Teatro que é cultura, a peça em si tem como objetivos incentivar para a introdução do conteúdo sobre folclore e frisar o conteúdo já aprendido. Para os mais velhos a peça conduzirá a saudade dos tempos de brincadeiras de rua e aos mais novos, mostrará um universo ainda vivo, fora das brincadeiras digitais. É este tipo de saída que uma instituição educacional deve fazer e não levar o alunado ao clube. Pois o objetivo de uma instituição educacional, não é oferecer lazer e sim instruções em determinadas áreas. O lazer é papel da família com o seu filho. A participação sempre ativa da plateia mirim, com a quebra da quarta parede, arrancou várias gargalhadas dos presentes. O elenco só deverá ter mais cuidado com os esbarrões, entradas e saídas pelo cenário de tecido suspenso. Ele não deve balançar e nem o ator deve ficar arrumando-o, com a presença da plateia. Mas este foi um ótimo e prático recurso cênico utilizado; pois ao mesmo tempo em que atrás dele, se transformava em coxia, se transformou também em camarim. Isso são coisas da maravilha que o Teatro proporciona. Vale conferir a peça “Carro caído” e poder se deliciar e nadar a braçadas em nosso folclore.
 

            Letícia Luccheze.

 TESTEMUNHAS
Cia Paz em Cartaz

Vamos ser realistas, mas alguns futuros atores, que escolherem o caminho de stand up, de contador de estórias, ou mesmo o de monodrama; deveriam fazer primeiro, um laboratório dramático com Jaime Júnior. Por que o que foi aquilo? O que foi aquilo? Como pode, um único ator, sob o tablado ter concentração extrema, e dominar características corporais de personagens diferentes, acompanhado também de vozes diferentes? E em primeiro momento, foi feito tudo isso, ao mesmo tempo!!! As primeiras palavras do ator abriram as portas da peça teatral, ao público e mostrou a riqueza que estava por vir. Já dava até orgulho de estar sentado ali e em meio a isso, veio um peso na consciência no valor simbólico que foi a entrada, perante o espetáculo que estava ocorrendo. Como diz Zé Ramalho na música “O meu pais”: “...e as Artes não respeita...Pode ser o país do futebol /Mas não é com certeza o meu pais...”. Como pode isso? O Teatro é tão importante na formação do ser, chamado homem; que está virando porta aberta para o mercado de trabalho competitivo, para quem o tem no seu currículo. Como podemos combinar com os amigos de ir ao cinema e não combinar de ir ao Teatro? Zé Ramalho, bom companheiro nos trilhos das Artes. Jaime Júnior foi esplendorosamente orgânico, teve empatia, e encarnou os personagens de forma que conseguiu tocar no anímico da plateia, emocionando-a desde a primeira palavra, a última. Sua ação exterior foi rica, em expressão gestual e vocal; conseguindo expressar todas as emoções. Foi uma perda, para aqueles que não puderam estar presente e compartilhar deste espetáculo cênico. E olha que a peça esteve em cartaz por três dias consecutivos! No discorrer da peça, em meio as cara e bocas do ator, se pode compreender também como o Teatro Gestual por vezes, fala mais alto e sem impostação. Pois a cada movimento da sua face, de seus braços, de seu corpo dolorido, por vezes retorcido, cansado, desesperado e leproso; mostrou que o ator profissional não tem medo da plateia; pois ela está no tablado junto com ele. Mostrou também que o ator profissional não tem medo de se expor; pois ele está ali fazendo Arte. Arte com seu corpo, Arte com sua voz, Arte que toca no outro que chora. O texto dramático em questão, estava acarretado de clímax, em meio a histórias diferentes, mas todas ligadas por Cristo. E seu tempo dramático, durou exatos trinta e três anos, do seu nascimento a ressurreição. Independente de sua religião, ou se a peça é um auto; vale muito a pena estar sentado numa poltrona e ter a oportunidade que poucos têm de reavaliar a vida, no tempo cronológico de uma peça teatral.
 

            Letícia Luccheze.

 (IN)PESSOA(L)
Cia Oops

             Quem nunca presenciou, belas poesias em meio a versos; que encantou, conquistou e jorrou sabedoria entre estrofes de um poema? Antigos costumes como os recitais de poesia, que outrora enchiam o ar de melodia e perfumava os encontros dos apaixonados. Locais estes, praticamente extintos, onde serviu de encontro para grandes escritores. Onde foram parar os versos, as estrofes, as melodias, as poesias? Onde está o poema? É sempre o último livro da livraria a ser vendido, quando não tem que fazer liquidação. A Cia Oops proporcionou aos apreciadores de literatura brasileira, de encontrar Fernando Pessoa, em pessoa, sob o tablado do Teatro Goiânia Ouro. Pois o homem pode morrer, mas as suas palavras jamais morreram. Ela perpetua o tempo, levando consigo o seu criador vivo! Não era um recital; pois a presença do Teatro era marcante. A plateia pode conhecer, ou reviver um pouco da vida desse memorável escritor; como também suas palavras, suas vidas e suas  facetas poéticas. Tudo isso em meio à poesia encenada, dentro de monólogos, ou contracenada, cheios de bifes bem passados. Numa mistura homogênea de Teatro Contemporâneo e “Teatro Estático”. Tendo em visto que o próprio poema tem seu enredo e cria ação por si só. Os atores com figurinos atuais, sem cenário e sem nenhum objeto cênico, conseguiram converter o espaço cênico para o espaço dramático de Fernando Pessoa. E o encantamento foi duplo. Primeiro com Fernando Pessoa em versos; segundo com João Bosco Amaral em cena. Só a sua impostação, a força da sua voz, as mudanças da mesma e suas ações exteriores, já valiam ter pagado a entrada. Como ele interpreta que é um espetáculo! Este sim, faz jus a cia. A Companhia Oops é uma das referências em iluminação teatral, nos tablados goianienses. Onde os estagiários de iluminação cênica, deverão tê-la como uma das fontes de seu estudo. Vale a pena assistir (In)Pessoa(L), com um trio cheio de força de expressão, que levou a plateia a um deslumbramento poético. E para quem gosta de apreciar um texto em versos, o descendente dos recitais, talvez seja a poesia encenada.
 

            Letícia Luccheze.

 O MARIDO DA MINHA MULHER

Cia Bandeirantes Produções Artísticas

 

Semiologia teatral é o estudo dos símbolos, dos signos presentes em uma encenação teatral. O primeiro signo do Teatro é um signo auditivo, que é a palavra. Saudosas aulas da professora teatral, Júlia Pascali. Mais, nos primeiros momentos do personagem Nico, ocorreu uma queda de impostação e dicção; o qual o ator conseguiu recuperar nos momentos seguintes. Já os signos exteriores caracterizaram perfeitamente a ação dramática. Desde o vermelho do sofá, aos arranjos florais em cores e disposição das rosas. Para um estudante de Teatro, a peça mostrou nitidamente como se pode fazer a sua divisão em atos. Podendo assim, usar o recurso da sonoplastia (tics e tacs), da iluminação (baixa), troca de figurinos e as entradas e saídas dos personagens. Outro momento pertinente, aos estudantes, foi quando o ator vindo da coxia, de uma troca rápida de figurino, não abotoou os botões esquecidos da camisa, em plena encenação. Ele reafirmou que um ator, de forma alguma pode confundir o tablado com camarim. Já a personagem Bruna, faz um cafezinho excepcional. Que aquele que estava embriagado, tem a sobriedade física e vocal de volta em segundos. Quase deu a entender que era o início de outro ato. Por isso, devemos ressaltar que o ator necessita de muita concentração, para que não perca as características de seu personagem; mesmo que estas sejam momentâneas no discorrer da montagem cênica. Mas é sempre um privilégio e um espetáculo, ver um ex-presidente da Federação de Teatro do Estado de Goiás (F.E.T.E.G.) em cena. Uma das coisas boas do Teatro, é a socialização. E um exemplo claro disso, foi o momento em que o personagem Paulo, dançava com a personagem Bruna e seu falecido marido Alex, puxa o amigo pelo quadril. Marcação esta, reciclada da apresentação da mesma peça, por outra cia. Percebe-se a socialização, a interação, o trabalho em grupo, com os outros e com o mundo, que o Teatro oferece? O que é bom, realmente deve ser aproveitado em todas as suas instâncias. No decorrer da apresentação, a cia fez tributos a personagens dos atores Edgar Vivar e Roberto Gómez Bolamos. O elenco em si soube encarnar, cada qual seu personagem, com ótimas expressões faciais. Os conflitos dramáticos bem distribuídos e dosados, o qual fez a platéia em deleites de gargalhadas. Vale a pena conferir a peça “O marido da minha mulher”; pois o texto dramático é muito bom; o qual provoca o riso cerebral e intelectual.
 

            Letícia Luccheze.

A FARPA
Cia Mínima 

Distribuído em atos, Guimarães Rosa novamente sob ao palco goianiense, levando um pouco da farpa do sertão. Quem der conta de escrever uma poesia, certamente conseguirá escrever um texto dramático. E dentro dessa dramaturgia, fruto da experiência de cada um da cia, nasceu o seu filho em meio à família Crispim. A dor, a farpa do abandono, a insanidade, a farpa da violência, o lamento, a farpa da desesperança, a seca, a farpa da pobreza, o incesto e a farpa da inundação são alguns sentimentos, situações e momentos presentes na apresentação. Peça teatral de duas horas de puro espetáculo cênico, com um elenco de primeira; que soube encarnar cada qual seu personagem. Antes acreditava que em Goiânia havia poucos atores profissionais, mas agora sei que eles estão escondidos e muitos na Companhia Mínima. Não se pode identificar um protagonista; pois todos eram protagonistas daquele sofrimento. O elenco mostrou o que é um trabalho em equipe dentro do Teatro, em meio às farpas das dores inconsoláveis e agudas de mais uma família do sertão brasileiro. Sendo você e eu chamados de seres humanos, devemos quebrar a casca do nosso ovo; pois já estamos podres dentro dele. E ao sair, perceber que existe gente lá fora, como os nordestinos, que precisam de ajuda e assim gerar ação em bem comum. Será que alguém entende agora o porquê que muitos nordestinos saem de sua terra natal e migram para as grandes capitais? Será que agora vocês conseguem ser orgânicos como o elenco e sentir a letra da música “Asa branca”? Pois os artistas quer sejam nas Artes Visuais, nas Artes Cênicas, nas Artes Audiovisuais, nas Artes Circenses, na Dança, ou na Música expressão é sentimentos. Um momento da peça em que os olhos brilham diante do cênico é quando o ator Andreane Lima representa o braço de Niinha que lhe acariciava o corpo. Que espetáculo de encenação!! Pois naquele momento sublime, não se via o braço do ator e sim o braço da irmã de Inácio. Esteve presente o Teatro Físico e Realista, dentro de um cenário acarretado de signos, que ilustrou e converteu perfeitamente o espaço cênico para o espaço dramático em que discorre a peça. Mesmo sem o elenco “interagir” com a platéia, estando separada “duplamente” por uma cerca de farpas. Toda a apresentação foi com a quebra da quarta parede; pois o clima emocional gerou uma empatia no público, que por várias vezes subiu, ao palco e integrou com aquela família, quando de sua face uma lágrimas corria. Em meio à caminhadas lentas, que frisavam o pesar, carregado nas costas dos personagens daquela vida, a ação cênica foi se construindo. Bifes bem distribuídos trouxe os atores algumas vezes, da boca de cena, ao proscênio encerrando a peça em um desfecho trágico e conclusivo de que vivemos e entre farpas. Se ainda não assistiu “A Farpa”, então junte todas as moedas que tiver espalhadas em casa e pague a entrada inteira; pois além de valer a pena, você assistirá, é a um espetáculo. Merda pra vocês!
 

            Letícia Luccheze.

XÉROX A COMÉDIA
Cia Arttpalco 

A cia aposta em colocar no tablado, mulher bonita de acordo com a mídia e doses acentuadas de sexualidade apresentadas em esquetes. Assim se define as apresentações desde a sua estréia em junho de 2008. Personagens anteriores voltam à cena, como a “sexóloga” Lucycreide que antes orientava na vida conjugal e agora fala da vida de aposentada. E cena como a do “Beijo Técnico”, foi repaginada desde as atrizes à estória. Nessa nova apresentação, surgem novos personagens e novas cenas. Questões como a bissexualidade se evidencia e nos remete ao kit anti-homofobia; criado e suspenso este ano, na gestão Dilma Rousseff. Onde um dos vídeos em desenhos, retrata a bissexualidade como vantagem; pois assim a pessoa “tinha duas vezes mais chance de encontrar alguém”. Essa é a mensagem presente em algumas cenas do espetáculo. Xerocopiado, não é verdade? No decorrer das apresentações; se apresenta vários “erros” despertados pela própria boca dos atores: “Eu tinha que ter uma bolsa aqui”, “Esqueci o texto” entre outros. Mais não foram erros; pois ficou evidente também pelo comportamento dos atores, que fazia parte do roteiro com o intuito de arrancar o riso. Isso é bom, fica interessante, mas não pode virar rotina entre os grupos e as cias. Pois aí se tornará comum, massante e monotonia; fora que a ilusão do Teatro perderá o valor da sua cortina. Temos também que zelar por alguns itens, como a impostação ter ficado irrelevante, com o uso do microfone na maioria das cenas. Da importância da mudança de voz e postura, quando se interpreta vários personagens dentro do mesmo espetáculo. E do desfecho de cada esquete. Mas quando o ator Douglas Monteiro sobe ao palco, não tem como segurar o queixo pelas suas boas atuações. Quem é que não lembra do contra-regra apresentado em comemoração, ao dia internacional do Teatro, no Centro Cultural Martim Cererê? É um espetáculo de ator! A apresentação da “Xérox” em si teve uma ótima construção dramática, em meio a música, dança e monólogos que fizeram os aplausos da platéia. O título permanece o mesmo “Xérox a Comédia”, mas a cada temporada as apresentações se renovam, como se desse, vida ao Teatro. Vale a pena conferir e você terá orgulho dos atores goianienses; pois eles estão lado a lado com os do eixo Rio-São Paulo.
 

            Letícia Luccheze.

 

 

 AMBIVALÊNCIA
Cia Novo Ato

             Horror em cena, foi um dos sentimentos despertados na platéia, que precisou de ajuda para aplaudir o espetáculo. A peça em questão abordou questões como dupla personalidade, castidade, conflitos conjugais, violência sexual entre outros. A trama transmite ao espectador o ambiente ambivalesco, de pessoas com dupla personalidade, que estão em guerra constante com os seus “eus”; o qual muitas vezes gera violência física contra terceiros. Sutilmente também nos conduziu ao mundo ambivalesco, privado dos direitos do outro, frio, egocêntrico, daquele que em sua prática se apresenta o aliciamento de menor, a pedofilia, o estupro, o assassinato e a sodomia. Em todo desenrolar do drama percebe, que muitos dos conflitos e problemas dos homens, têm como pano de fundo a sua sexualidade. Seríamos nós, atuantes ativos do Pansexualismo? Nessa interrogação, vem a mente Mahatma Gandhi que se absteu de sua vida sexual, com o objetivo de purificação da alma. Teatro Físico com uma pitadinha de Teatro Realista dá vida a esses conflitos, que acarretam a vida de algumas pessoas comuns, que se tornam incomuns nos noticiários policiais. A marcação e o trabalho corporal, perfeitos, com um efeito visual belo. Qualquer estudante de Teatro perceberia o valor que tem as técnicas de respiração para a prática teatral. Um momento cênico espetacular, foi quando a atriz Marília Ribeiro é girada dentro do seu pequeno mundo distorcido e como em um passe de mágica se apresenta a sua outra personalidade no corpo da atriz Ana Lu. Quer saber se o ator é bom? Dê um bife a ele. Quer saber se a cia é boa? Dê um drama a ela. E isso a cia tirou de letra, em meio a um Teatro inteligente, sob o tabuleiro do jogo das duplas personalidades e de alguns distúrbios sexuais. Vale a pena conferir a peça e se no final você ficar horrorizado, sem reação, é porque conseguiu entrar no mundo dessas pessoas.
 

            Letícia Luccheze.

  

BRASIL COM ACENTO E CRASEADO
Mama Cadela Cia Teatral

             Nos três maiores jornais da cidade, estava publicado que a peça teatral começaria às 21:00 horas. Eu disse que estava publicado a palavra “PEÇA” e não cena. Pois bem, a porta que dá acesso ao interior do teatro abriu às 21:05, as pessoas se aglomeraram na entrada, um funcionário do teatro conferiu os bilhetes em inteira, ou meia e sua veracidade. Um a um todos foram entrando, se acomodando e aguardaram a espera do início do espetáculo. E quando o relógio marcou 21:30 o espetáculo chegou ao fim. O quê??????? Fiquei com a boca entre aberta, prostrada no assento do teatro, sem forças pra levantar e ir embora. É verdade que séculos atrás, as peças teatrais duravam horas, dias até. Hoje em nossa atualidade, no mínimo uma peça teatral tem que ter a durabilidade de uma hora. Abaixo disso temos apenas cenas, cenas curtas, somente cenas. Parei de lavar o chão para ir ao teatro, tive um gasto financeiro de cinqüenta reais desde deslocamento à compra do bilhete. E acabei assistindo foi uma cena!!!!!! O que fazia no fundo do palco do lado direito da platéia uma escada aberta? Será que era parte do cenário? Ou era um objeto cênico desnecessário, fazendo sujar a cena? Na interpretação de “Pedro Álvares Cabral” feita por Renata Curado não se consegue ver o personagem; somente a atriz no tablado. Isso porque a atriz interpretando um homem, falava em seu próprio timbre feminino e o figurino não ajudou a ocultar partes de seu corpo de mulher. Pedro Álvares Cabral tinha timbre médio e seios?? Será por isso que um dos jornais ao se referir ao espetáculo, colocou o título “Antiguidade x atualidade”? A assinatura no texto dramático prometia, mas não foi o que aconteceu em menos de vinte e cinco minutos de encenação.
 

            Letícia Luccheze.

SER TÃO GRANDE
Grupo Arte e Fatos 

            Figurino impecável, fotografia imensurável, trabalho de corpo e caracterização do personagem pelo ator relevantes, iluminação presente e direção bendita. Bendita direção! Assim se pode dizer um pouco da peça teatral em questão. Texto dramático, fiel a Grandes Veredas, conseguiu emocionar a platéia ativa da vida dos sertanejos. De sua inocência, miséria, doença, chão rachado, morte, “Vidas Secas”, Deus e o diabo. A morte em badaladas, a espera, como o urubu sedento pela refeição à frente. O dialeto, a cenografia objetiva, clara, versátil e inteligente auxiliou a contar em uma hora e meia a vida simples e pobre de homens que clamam silenciosos por ajuda. E muitos de nós ditos brasileiros ignoramos essa condição de vida, nos contendo em nosso mundo fantástico e imaginário; fugitivo da realidade. O mapa geográfico talhado no que tentava proteger do frio, o navegar pelo rio, a transformação do boneco em menino, o velório e a inocência de um garoto com seu brinquedo circense; realmente foram vários espetáculos dentro de um espetáculo maior. Excelente apresentação! Vale a pena conferir “Ser Tão Grande” e poder lhe proporcionar o prazer de navegar na literatura brasileira em cima de um tablado; o qual retrata a vida de nossos sertanejos. Se emocione, chore com eles, erga a sua mão e faça a diferença em nosso mudo. 
 

            Letícia Luccheze.

PARADOXO
Cia Marula

 

Nada que um drama e bifes distribuídos ao elenco para se encantar com uma boa atuação. Teatro é fazer a plateia enxergar o que não existe, mas coexiste no drama. O grupo, ou cia que conseguem fazer que a platéia veja dramaticamente, merece ser aplaudida de pé. Se Simão Bacamarte estivesse assistindo a peça, certamente iria conduzir pessoalmente o elenco a Casa Verde; junto com boa parte da plateia que compartilhava daquela insanidade, isso se não fosse toda ela (e cadê eu?). Assim a peça desenrola nas loucuras normais e comuns a muitos que compartilham uma vida sozinha na zona urbana. Hamlet diz em seu devaneio cênico: “Ser ou não ser eis a questão...”. Aí modificamos um pouco: ser ou não ser, não se sabe o que, dentro da civilizada cidade. Havia um terceiro personagem na peça em questão, podendo ela ser denominada como o cadáver, ou mesmo o defunto. Não existe a defunta; pois se trata de um substantivo sobrecomum. E nesse comum do sobrecomum que é um espetáculo teatral, os atores, ora um, ora outro, representava o cadáver, o que ficou formidável. O público “via” o corpo no chão, de acordo com o direcionamento dos olhares e gestos do elenco em relação ao mesmo. Mas este mesmo elenco fez que a plateia enxergasse o cadáver em dois pontos distintos. Ora o defunto estava inclinado, do lado do banco, um pouco à frente e ora estava do lado do banco, horizontalmente um pouco atrás. Fora que vira e mexe o cadáver era pisado pelos atores. Talvez seria o delírio encenado, já fragmentado no corpo do ator? O texto é firme e forte; o qual nos converte para o espaço dramático do século XIV, onde foi dizimado mais de 70 milhões de pessoas pela Peste. A própria sinopse da peça confirma: “...a peste que assola aquela cidade...” Mas nessa época ainda não se usava palavras como “overdose” e o cenário e o figurino também não condizem com o espaço e tempo. Temos que ser cuidadosos quando acrescentamos ao texto original, trechos de outras obras. Mais entre Machado de Assis, Mauri de Castro, William Shakespeare e Antonin Artaud; vale a pena conferir Paradoxo, pois em um ponto ou outro da peça, com certeza você se identificará.
 

            Letícia Luccheze.

 

OS ESQUISITOS
Grupo Encantarte de Teatro

A Mímica tem função paraverbal de uma ação (correr, beber água, tomar banho). Já a Pantomima não se limita apenas a uma ação, ela conta uma história, também por meio de gestos. A peça teatral em questão utiliza a pantomima para apresentar esquetes. Tendo boas atuações na esquete do fotógrafo, em relação ao assunto desanimado e na dos jogadores de pingue-pongue. Já na esquete dos dois corredores, a ideia do rabo de espuma, representando o vento passando pelos corpos em movimentos foi genial. Mas qual o objetivo cênico de colocar atores no palco isolados, ou não, para dançarem e dublarem músicas? Teria a função de intervalo? E por que cada quadro estava necessariamente ligado à conclusão de músicas? Tornando aí, cenas que poderiam ser maravilhosas em massantes. A disposição do teatro nos fornece um camarim com duas saídas para o palco que se transformam em “coxias”, uma a direita e outra a esquerda. Então como pode o ator cortar todo o palco para colocar na outra extremidade um objeto cênico (buquê)? O ator tem que se organizar antes da apresentação e todo objeto deverá já estar em seu lugar e não ser colocado com toda a plateia observando. Se o mesmo camarim divide parede com o palco e não tem portas e nem paredes acústicas, então não se deve conversar alto e nem apontar para assistir a cena. Os figurinos tiveram um investimento significativo. Mas um figurino preto com marcas de maquiagem branca? Tinha até uma mão inteira no corpo do ator! Tudo bem, isso pode sim acontecer, mas antes de entrar no palco dê uma geral e tenha sempre em mãos um pano úmido. Não há problema nenhum se a peça teatral for em esquetes, desde que todas elas tenham uma ligação, aparente sim, no contexto geral. Por que o espetáculo foi constantemente quebrado? A cada esquete o palco ficava vazio, sem ninguém, sem ação, morto! Os atores estavam esperando o que no camarim? Parecia que não era um grupo apresentando e sim vários em um festival de cenas curtas. A sinopse da apresentação dizia o seguinte: “...unem-se pela diversidade de concepção e, sobretudo, de efeito...” “...a montagem surpreende pela proposta sincrético-sinestésica.” Gostaria muito de quem redigiu a sinopse tivesse na direção do espetáculo. O grupo está em crescimento e deve continuar com os trabalhos cênicos; pois tem potencial.
 

            Letícia Luccheze.

 

O BONECO DE COR
Teatro do Maleiro

            No Teatro de Animação o foco está no objeto, que antes inanimado, agora ganha vida; se tornando uma pura prosopopéia. Como um contador de estórias, o bonequeiro não deve chamar atenção para si e sim para o seu alvo em questão (estória/boneco). Ambos profissionais devem ficar o mais nulos, os mais ocultos possíveis no espaço cênico. Ressalto se o bonequeiro transformar em personagem, fazendo parte da estória; caso contrário nenhum pedaço dele deve ser “visto”; ou dado enfoque. Isso ajuda o público que deve ouvir só a estória, ou ver só o boneco; deixando espaço para que o seu imaginário leve seus sentidos a um mundo irreal de materialidade. E nessa magia os bonecos inspiram o fôlego da vida e andam, falam, riem. Na primeira estória da apresentação (o boneco com a caixa) o bonequeiro fica “visível” no tablado, devido à presença de uma gravata (?), a ausência de luvas e máscara. Entendesse a ausência das luvas; pois em momentos a mão do manipulador se transforma na mão do boneco. Então entendesse também, que Teatro é um trabalho em grupo e que havia a necessidade de dois bonequeiros no primeiro quadro. Apesar que o palco estilo arena não colaborou muito; pois o boneco no chão, só conseguia assistir com perfeição as primeiras fileiras de espectadores. Já na segunda estória (boneco idoso) o bonequeiro se apresenta de chapéu, blusa e a gravata. Mas ele agora, se transforma em um personagem e temos o prazer de assistir um espetáculo, onde o boneco e o seu próprio manipulador conversam em meio a interação com a plateia (Norvarie rsrsrs...). Um deslize ocorreu na quarta estória (boneco com mala) onde se vê a mão do manipulador por mais de uma vez. Em meio a várias estórias, se percebe que Marcos Marrom tem domínio perfeito em relação a tipos de vozes e em outros, os bonecos são manipulados com perfeição. Vale a pena conferir a apresentação do “O Boneco de Cor” e saborear um pouco desse universo que é o Teatro de Animação.
 

            Letícia Luccheze.

 

LIÇÕES DE MOTIM
Anthropos Companhia de Arte

No início percebe-se, como o Teatro é mágico; no momento em que a atriz Renata Caetano transforma um lenço em pano de chão. Juntando isso, com o bom cenário, em meio aos seus signos, o plano médio e a mudança de timbre; remeteu a muitos as saudosas aulas de Teatro. Um momento interessante da apresentação é quando à viúva entra e sai de casa, dando a volta no corpo do ladrão. O rodar que o ator Liomar Veloso faz na janela e com ela, foi um insight muito bom; o qual passa perfeitamente a ideia da ação. Momento esse aproveitado para que o ladrão ficasse de frente para a plateia. Quando o ladrão começa com um choro enrustido, o riso da platéia some, dando lugar a olhos úmidos. Que logo secam com a tentativa de convencimento do ladrão à senhora pensionista. Fazendo muitos a pensar nos ditos dos poucos que dominam para os muitos dominados: “não faça isso, porque se não você vai ficar com a consciência pesada”, “não faça aquilo, porque depois você não vai conseguir colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo”. Talvez seja isso que a viúva tenha pensado e concluindo que os dominantes fazem pior e não têm peso de consciência e dormem tranqüilo, tranqüilo. E assim ela resolverá mudar a estória. O texto da peça teatral é impecavelmente perfeito! “Lições de Motim” realmente é um espetáculo, te fazendo ter uma epifania da vida. Muito, muito, muito, muito, muito bom! Vale a pena conferir e trocar a T.V.; pois no final verás que os 10 reais da entrada saíram de graça.
 

            Letícia Luccheze.

PAPO CALCINHA - POR ELES
Companhia Stars

A divulgação promete um conhecimento do mundo masculino perante o universo feminino. Mas o que ocorre é uma desvalorização da mulher perante o universo masculino. Para quem acredita que homens têm cérebro e mulheres só silicone, compre seu ingresso antecipado. Um ator profissional sabe que se errar deverá improvisar e no espetáculo em questão o ator errou e fez questão que a plateia percebesse. AH????? Está bem, vamos dar um crédito porque esse ato arranca saborosas gargalhadas. Mas errar uma, duas, três, quatro???? A ideia de colocar os atores para trocar de figurino no tablado, ficando só de cueca, foi uma excelente jogada de marketing. Mais trocarem de figurino, duas, três vezes, virou rotina e a plateia começou a conversar sobre assuntos diversos. É importante que os grupos e as companhias quebrem a quarta parede. Mas se quase cem por cento da peça é sem a quarta parede; aí vira um programa de auditório. Ressalto os monólogos. Querer anunciar que sua peça teatral não é boa, ou auto-suficiente antes mesmo dela começar é plantar pessoas da companhia na plateia. Isso é chamar de ignorante, a plateia de onde vem o seu sustento e é ela o seu maior crítico teatral. Para os amigos é compreensível que os atores demorem na coxia. Pois afinal são homens colocando meia fina. Mas não é aceitável para qualquer apresentação teatral, que o tablado fique sem ator, vazio, parado, morto, matando o espetáculo. Mais vale a pena conferir a peça “Papo Calcinha – Por Ele”; pois o ator Murillo Veiga encena que chega seus olhos riem.
 

            Letícia Luccheze.

 

 

 

 

 

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